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sábado, 26 de agosto de 2023

Os Paradoxos de Zenão de Eléia



Os paradoxos, ou “aporias”, de Zenão de Eléia repousam sobre um paralogismo a respeito do movimento como sendo coisa divisível na realidade própria, pois é bastante óbvio que o percurso de qualquer objeto que se movimenta é indivisível a não ser na imaginação, já que não sofre solução de continuidade. 

Desta maneira, Zenão supunha, ou pretendia supor, que uma seta lançada em direção ao alvo poderia ter o seu movimento secionado na metade do percurso, e, logo em seguida, o restante do movimento secionado na metade, e assim continuamente, ad infinitum, e continuar sendo o mesmo movimento. Entretanto, um movimento contínuo não admite ser dividido desta forma arbitrária, apresentando-se sempre como unidade indivisível, e tornando-se, a cada interrupção, um outro movimento.

Em suma, o que Zenão fazia supor era que a flecha percorria o caminho até a metade em direção ao alvo e parava. Em seguida, recomeçava o seu movimento, indo até a metade do percurso restante e parando. E prosseguia, desta maneira, sem nunca chegar a atingir o alvo. É verdade que se a flecha procedesse deste jeito estranho, cessando e recomeçando a sua trajetória a cada metade de um percurso, ela jamais atingiria o alvo. No entanto, seus movimentos sucessivos, que não seriam um único movimento, iriam se apresentar cada vez menores, até se tornarem imperceptíveis ao olho humano, em seguida aos microscópios comuns, e, por fim, absolutamente imperceptíveis. Pois o espaço, secionado e medido desta forma, é infinitamente divisível.

O mesmo se dá com o paradoxo conhecido como “Aquiles e a tartaruga”, uma corrida singular. Aqui, a suposição a priori é que partindo a tartaruga no mesmo instante em que Aquiles, mas de uma certa distância a sua frente, ou seja, mais próxima do local assinalado para chegada (digamos que a vantagem da tartaruga seja de cinquenta metros), Aquiles percorre a metade da distância (vinte e cinco metros), enquanto que a tartaruga avança um pouco. Caso os dois fizessem uma parada neste instante, e em seguida reiniciassem a corrida, com certeza Aquiles jamais alcançaria o quelônio. Este, por outro lado, também não atingiria nunca o objetivo, embora parecesse aproximar-se dele cada vez mais — seus avanços tornar-se-iam imperceptíveis, pois o espaço pode ser secionado ao infinito. Entretanto, não é o que acontece com nossos dois competidores na realidade, uma vez que eles não param nunca. Logo, Aquiles não percorre jamais a metade do caminho, ou um terço do caminho, ou qualquer outra divisão deste, mas ultrapassa continuamente todos estes pontos.

Levando este raciocínio ao extremo, podemos imaginar que a tartaruga permanece parada, sem mover-se um centímetro para a frente. Ainda assim, se Aquiles corresse em sua direção somente até a metade do percurso e fizesse uma parada, recomeçando depois a proceder da mesma forma, jamais a alcançaria. Nem mesmo em um bilhão de anos, apesar da total inatividade do animal.

Por este motivo é que as aporias de Zenão parecem funcionar, forçando-nos a visualizar o movimento como se fosse uma linha estendendo-se no espaço, o qual pode ser imaginado como no ato de visualizar a trajetória da flecha ou da tartaruga. Tal linha, uma vez estendida e fixada na imaginação, pode ser interrompida onde bem se quiser. O próprio tempo, contudo, não admite estes estratagemas. Não se pode visualizar um segmento temporal com inicio, meio e fim. O tempo está fora do reino da imaginação, ao contrário do espaço. O tempo não pode ser imaginado. Mas, quer nos voltemos para o inicio da ação (passado), ou para o seu final (futuro, ainda não ocorrido), tudo o que vemos em nossa imaginação, no presente o vemos.

 

José Cassais

O Ser Não é o Saber

Pergunta: Qual é a importância essencial do conhecimento?

Resposta: Tal importância só pode ser relativa à sua capacidade de permanência e disponibilidade. Logo, por ter a sua sede na memória que é, ela mesma, uma das nossas capacidades mais instáveis o conhecimento deve ser considerado um atributo fugaz, o qual tem de ser constantemente atualizado, quer dizer, recriado e fundido em uma nova estrutura. A memória é ainda uma capacidade variável de um ser humano para outro, ela que sustenta o conhecimento adquirido, mas ao mesmo tempo o desfaz conforme nos distanciamos da experiência original (concreta ou abstrata) que o gerou como conhecimento específico. Isto demonstra claramente o quanto pode ser superficial e desnecessário qualquer tipo deste conhecimento não básico que subsiste sem um uso determinado na existência mais prosaica e que só se mantém na memória à custa de um interesse renovado num tema determinado – tal como se um homem ás portas da morte estivesse sendo constantemente revivido pelas técnicas da moderna medicina.

O conhecimento humano é fluído, plástico por sua própria natureza, em constante evolução, jamais, porém essencialmente indispensável ou inalienável da natureza humana verdadeira. Nossa memória instável e variável nos permite mantermos certo nível de conhecimento prático disponível, e todo profissional depende desta capacidade para exercer o seu mister, desde que os aspectos relevantes de sua área de conhecimento estejam também fixados e disponíveis em livros ou outra forma qualquer de meios que se prestem à uma consulta eficaz.

Logo, os valores básicos do ser devem ser procurados fora da estrutura deste conhecimento tão instável, uma vez que o homem, individualmente, nunca foi senhor da totalidade do conhecimento possível, enquanto que a felicidade que pode nos provir do contato com a concretude da realidade é sempre uma necessidade imediata. Foi a experiência desta realidade plenamente apropriada que gerou e nutriu os diversos ramos válidos do saber. Até mesmo a filosofia tem sua utilidade, ainda que permaneça no mesmo plano das outras ciências, como a engenharia ou a física, que são ciências meramente explicativas, úteis quando ao seu conhecimento seguem-se ações concretas destinadas a transformar a realidade a fim de que os seres humanos desfrutem de uma vida mais confortável.

O conhecimento também não pode trazer felicidade, pois elucida sobre as causas, mas delas não liberta os indivíduos. O que devemos fazer, então, senão valorizarmos este conhecimento evanescente tão somente no seu aspecto necessário e também prático, que é o que nos permite trabalhar produtivamente a realidade a nos envolver de forma tão objetiva?

Para que enchermo-nos de conhecimento relativo, quer dizer, conhecimento evanescente, como se disto dependesse a nossa própria humanidade?

 

José Cassais

O Poder da Recitação Conjunta

Tive parte, ontem à noite, em uma experiência peculiarmente estranha. Encontrava-me participando de uma aula teórica sobre legislação e sinais de trânsito. Num determinado momento, a professora pediu aos alunos que preenchessem com respostas um teste sobre o assunto que estava sendo tratado, e depois solicitou que lessem todos, em voz alta, as questões com as respostas corretas. Os alunos começaram então a ler, nem todos no mesmo ritmo, nem todos lendo todas as palavras, alguns apenas balbuciando-as; uns com voz reduzida, outros, mais corajosos, falando mais alto. 

Mas as vozes soando juntas guardavam uma certa harmonia, as frases repetidas com alguma defasagem faziam lembrar as antífonas do catolicismo e as ave-marias que os fiéis rezam em conjunto, assim como os versículos bíblicos que são lidos por todos nas igrejas evangélicas, quando o pastor solicita que assim o façam. Se fechasse os olhos e não prestasse atenção no sentido das palavras (como estava, mais ou menos, fazendo) sentir-me-ia (como realmente me senti) participando de um culto religioso. 

Que estranho poder é este que reside nas palavras de um texto lido em conjunto por uma congregação de seres humanos, o qual empresta um sentido místico às prosaicas questões de um teste sobre sinais de trânsito!

 

José Cassais

O Jogo da Vida

A vida bem pode ser como um destes jogos de videogame nos quais só conseguem passar para um estágio mais avançado e emocionante aqueles jogadores que tem habilidade suficiente para superar a dificuldade dos estágios iniciais — alguns jamais vão além do primeiro estágio. Também é verdade que só alcançam um progresso significativo no jogo aqueles indivíduos que não desistem com facilidade e despendem uma grande parte do seu tempo enfrentando a máquina, fascinados pela possibilidade do desvendamento da própria capacidade.

Cada pessoa escolhe o jogo que melhor serve ao desenvolvimento de suas habilidades inatas, cada um determina o seu próprio desafio. A vida não libera os estágios posteriores para quem não se saiu bem nos iniciais. E ainda, como em qualquer situação onde se joga para valer, há um tempo determinado para cada jogador provar sua capacidade: não mais do que alguns minutos, se o adversário é uma máquina eletrônica, e apenas o tempo útil da existência de um ser humano, se é a vida o adversário.

 

José Cassais

O Estudo da Filosofia

Para tornar mais fácil o estudo da filosofia e as investigações pertinentes podemos não apenas mudar a nomenclatura, como expandir e alterar os conceitos. 

Não devemos erigir Aristóteles para ser o grande legislador da filosofia, como se esta devesse ter uma constituição imutável, tal qual a das nações, e aquele devesse ser o seu constituinte supremo. Kant pensava desta maneira e legou-nos a sua própria tábua de categorias, que não devemos também aceitar como sendo a imutável expressão da verdade.

Para facilitar as coisas podemos mudar o termo “categorias” por outro muito mais compreensível no contexto do que se quer significar: “aspectos” da realidade. A realidade, portanto, tem vários aspectos, através dos quais ela se manifesta. Ninguém pode negar que o tempo é um dos aspectos da realidade, assim como o espaço. Além destes, podemos observar a quantidade, a extensão...


José Cassais

O Estado e a Segurança

A função número um do Estado é garantir a segurança dos seus indivíduos. A fim de exercê-la eficientemente ele primeiramente os despoja da possibilidade de agirem por sua própria conta na defesa de seus interesses. E nem poderia ser de outra forma, pois se tal não acontecesse o próprio estado não teria razão de existir, já que cada homem agiria de acordo com a sua própria concepção de justiça, e a do Estado seria apenas mais uma entre tantas. Porém, é do fato de ser única a sua justiça, ou seja, consensual, que ele retira toda a sua força.

Logo, havendo tomado das mãos dos cidadãos a possibilidade de se defenderem plenamente, de estarem constantemente preocupados com a própria segurança e provendo-se dos meios para garanti-la, se o Estado negligencia esta sua função primordial, permanecendo os cidadãos presos ao seu compromisso com ele e impedidos de cuidarem do interesse da sua própria segurança, então o Estado se transforma de defensor do bem maior de todos que dele dependem em inimigo público número um, uma vez que entrega indefesos, nas mãos dos indivíduos mal-intencionados, toda a comunidade dos que querem viver e produzir em paz e segurança.

 

José Cassais

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

O Diferencial da Cultura

De acordo com a linguística, ou até mesmo com os ensinamentos da novíssima Ciência Cognitiva, a linguagem humana com sua sintaxe é um dom inato, instintivo, tal como o das aranhas para construir a teia ou o das aves que se guiam em suas migrações pela posição das constelações. Segundo Saussure, Pinker, Chomsky e outros importantes pensadores, dominar perfeitamente o mecanismo complexo da linguagem não é privilégio das pessoas ditas cultas, mas algo inerente a uma determinada etapa do desenvolvimento da mente, um mecanismo herdado e programado para ativação num período recuado da existência humana: aos três ou quatro anos de idade qualquer criança, independente da raça à qual pertença, já domina tão bem o seu vernáculo, em relação à sintaxe e correta construção gramatical das frases que emprega, quanto Platão ou Shakespeare dominavam os seus nos seus períodos mais criativos. 

Além das verdades que nos trazem as conclusões de estudos deste tipo, torna-se evidente a ocorrência nos escritos de muitos dos divulgadores destas descobertas tentativas, veladas ou muito abertas, de utilizá-las com vistas a justificar um nivelamento do ser humano, relativamente ao seu potencial cultural, ao nível do domínio das complexidades gramaticais, sem levar na devida consideração que o nosso desenvolvimento como seres cultos acontece sobre este estrato de conhecimento gramatical instintivo, independentemente de qualquer capacidade genética herdada.

Obviamente, para nós a sintaxe é o mais importante, pois a linguagem é o que nos diferencia conspicuamente dos outros seres vivos. É como se fosse um alicerce que já recebemos pronto, infrangível, perfeito nos mínimos detalhes. Contudo, o que se constrói sobre este alicerce depende de cada um — se bem que, às vezes, não apenas de nós, mas também daquilo que o ambiente nos disponibiliza. A tal construção cognominamos a “cultura” de cada um. Platão, no que diz respeito ao seu tesouro de linguagem, poderia estar no mesmo nível de riqueza que um infante ianomâmi, mas a construção que ele ergueu sobre este comum alicerce dificilmente será igualada pelo último.

Todos os seres humanos possuem capacidade semelhante para desenvolver o domínio da sua linguagem, independentemente da raça ou civilização à que pertençam, e merecem por este motivo ser considerados como possuindo o mesmo status intelectual. O diferencial dos indivíduos assenta-se sobre o que eles constroem sobre esta base, pela maneira como “culturalizam” a sua linguagem particular. Neste sentido nenhum homem é igual a outro, cada um atraindo para si, dos seus semelhantes, níveis de consideração e de reconhecimento diferenciados. Em tal sentido, nem mesmo em uma sociedade particular, por mais igualitária que ela seja, dois indivíduos podem ser igualmente considerados, porquanto cada um desenvolve o seu domínio da linguagem percorrendo os caminhos que seleciona para si mesmo no reservatório cultural ao qual todas as pessoas naquele ambiente tem acesso. Quanto mais evoluída a cultura de uma sociedade, o número das linguagens técnicas a disposição de todos e o acesso a elas disponibilizado aos seus cidadãos, maiores as possibilidades de crescimento intelectual diferenciado para cada um deles.

 

José Cassais

Mundos Possíveis em Termos de Classificação

Escritores sobre assuntos de economia, políticas sociais e afins utilizam a muito conhecida divisão do mundo em três categorias, de acordo com certas definições: primeiro segundo e terceiro mundos. Tal divisão, se bem que tenha sido universalmente adotada, parece estar fundada em um conceito ultrapassado ou inadequado, pois as condições dos países hoje em dia, uns em relações aos outros, são tão variadas que não cabem em apenas três moldes. Por este motivo, seria preciso acrescentar pelo menos mais uns três mundos com suas características definidas de condições sociais e econômicas.

Se, por um lado, é aceitável colocar países como os Estados Unidos da América, a França e a Alemanha dentro da definição dada pela expressão "primeiro mundo", por causa de seu nível muito semelhante de progresso social, por outro lado, não é possível afirmar que Brasil e Nigéria, por exemplo, podem ser encaixados na mesma categoria de "terceiro mundo". Se o Brasil está nela, então a Nigéria e outros países do mesmo perfil teriam de ser ditos de "quarto" ou de "quinto mundo". E o que dizer do Haiti, do Quênia? O problema é que a definição de primeiro mundo se aplica muito bem aos países para os quais é destinada, talvez a de segundo mundo seja um tanto adequada aos seus países alvos, porém, a de terceiro mundo com certeza mascara a realidade, criando um conceito na mente dos que a utilizam que é a média ponderada de todos os países por ela englobados. Neste caso, se o leitor preferir que o terceiro mundo seja exemplificado pelo Brasil ou pela Argentina, tendo estes países como paradigmas e alvo das políticas econômicas unificadas do primeiro mundo para com o terceiro, tal conceituação será injusta para com os países que estão muito aquém daqueles no seu desenvolvimento econômico e social. Tal concepção dificulta a compreensão do nível e tipo de justiça social que os países abaixo do "segundo mundo" necessitam para a correção das injustiças e desigualdades que os assolam. Quer dizer, se fosse possível repartir igualitariamente toda a riqueza que existe no Brasil o problema deste país estaria solucionado, mas se o mesmo procedimento fosse adotado na Nigéria não mudaria quase nada. O Brasil sofre de um alto grau de injustiça "interna", enquanto que, na Nigéria, a necessidade mais premente é de justiça "externa".

Quantos "mundos" serão necessários para englobar a diversidade de condições neste planeta? Se partirmos de uma tabela com os países alinhados de acordo com o seu nível de desenvolvimento medido pelo "índice de Gini", ou qualquer outra medida justa das suas condições econômicas e sociais, poderemos ter umas cinco ou seis divisões acuradas, e a ajuda para o desenvolvimento e alívio imediato das dificuldades haverá de ser direcionada, em primeiro lugar, para os mais necessitados do mundo. Deste modo, deveria haver um programa mundial de ajuda para que os países do "último mundo" passassem para o nível do "penúltimo", os quais seriam então juntamente considerados como se encontrando no último nível e alvos do mesmo processo, até que toda a humanidade alcançasse igual nível de desenvolvimento, ou, pelo menos, devessem os países serem classificados como pertencentes, no máximo, a um segundo mundo.

 

José Cassais

Mais Sofística Platônica

Quando Platão desenvolve seu argumento a respeito do “um que não é” ele parte de um conceito absurdo, contrário ao principio aristotélico de não contradição, e, consequentemente, todas as suas conclusões não são nada mais do que paralogismos. Platão pronuncia “o um”, atribuindo-lhe existência, e logo em seguida afirma que ele “não é”. Pois dizer o “um que não é”, é o mesmo que dizer “a água que não molha”, ou o “fogo que não queima”. No momento mesmo em que se diz “água” (supondo-se que esta esteja em seu estado liquido), pronuncia-se também a sua característica de ser molhada; no momento em que se diz “fogo” pronuncia-se a sua característica de queimar, e no momento mesmo em que se diz “o um” pronuncia-se o seu ser.

Logo, o “um que não existe” não pode ser pronunciado com propriedade. O que não existe não pode ser qualificado. Se não existe não pode ser “o um”. Com ele nada se relaciona, e a partir dele nenhuma inferência é alcançada. Pode-se dizer: “se o um não existe”. Mas não pode dizer-se: “o um que não existe”. Para fazer tal afirmativa, no próprio ato de nomear o um utilizando o artigo definido, afirma-se a sua existência, para logo em seguida (no caso de Platão) predicar-lhe o não ser. Como é possível afirmar a existência de um ser e, em seguida, o contrário disto?

 

José Cassais

Sofística Platônica

Ler e acompanhar mentalmente o desenvolvimento de um, ou vários, argumentos em um diálogo de Platão, mormente nos da última fase, tais como o “Parmênides” ou o “Sofista”, constitui-se em um exercício intelectual extenuante a exigir um esforço supremo de atenção — mas que não vai além disto. Não se encontram, ocultas no texto, grandes verdades, nenhuma descoberta metafísica realmente importante. Tudo se resume, conforme o conselho do próprio Parmênides ao jovem Sócrates, num exercitar-se em “conversa fútil” — Lalia. Argumentar para confundir somente — erística pura. O objetivo é, segundo Parmênides, sublime: exercitar a mente na procura da verdade. Todavia, encontrar-se-á alguma conclusão valiosa ao cabo das inúmeras sendas de argumentação por onde nos conduz o hábil Platão? Pois tudo se passa, na verdade (embora não tão declaradamente), como se entre um mestre e o seu discípulo o seguinte modelo de diálogo fosse constantemente utilizado:

-         E observe mais o seguinte: um mais um tem como resultado dois?

-         Sim.

-         Mas dois e um não tem como resultado o três?

-         Exatamente.

-         No três coexistem, então, o dois e o um.

-         Claro.

-         Mas o dois contém dois uns, conforme concluímos a pouco.

-         Foi assim mesmo que concluímos.

-         Logo o três se compõe tanto de três quanto de dois números?

-         Perfeitamente.

-         Portanto, o dois e o três equivalem-se.

Quem concorda com o sofista? O locutor imaginário de Platão ou nós, leitores atentos de seu diálogo? Façamos nossas as palavras com as quais o já citado Parmênides extravasa o seu assombro diante dos intrincados e intermináveis argumentos da sofistica: “Que oceano de palavras devo atravessar no transcurso desta minha existência!"


José Cassais

Comunismo, o Novo Leviatã

Daquelas pessoas que se esforçam para implantar o comunismo em uma sociedade a minoria, que estudou os princípios do comunismo e sabe que ele não funciona ou funciona mal em comparação com o simples sistema de mercado, age com má intenção, em causa própria e sem levar em consideração o destino da própria sociedade; os outros, que são a grande maioria, simplesmente não entendem nada de ciência econômica, sentindo prazer em cultivar a sua indignação natural contra aqueles que se sentem justificados em apodar de classes exploradoras. Pertencem a um tipo de pessoas que aprecia sentir-se mais justa do que os outros, apontando-lhes um dedo acusador, para as quais pessoas o comunismo fornece os motivos que aparentemente justificam tal atitude — motivos que elas não se preocupam em avaliar em profundidade, e nem mesmo tem condições para tal empreitada.

Substancialmente, pessoas são boas ou más. Da mesma forma, sistemas de produção são eficientes ou ineficientes. Acidentalmente, pessoas podem ser eficientes ou ineficientes, e, da mesma forma, acidentalmente sistemas de produção podem ser bons ou maus se considerados como causas e nos seus efeitos sobre a vida das pessoas. Seres vivos, enquanto dotados de moralidade (ou conhecimento do certo e do errado), não podem ser julgados por categorias de eficiência ou ineficiência, assim como sistemas físicos de produção não podem ser julgados por categorias de bondade e maldade.  Os que acreditam no marxismo acusam o sistema de produção capitalista de ser intrinsecamente mau, o que se revela um erro, pois não é possível emitir um julgamento moral a respeito de um sistema. Parece como se os críticos marxistas do sistema capitalista atribuíssem a este último a propriedade de retirar das pessoas a possibilidade de agirem de maneira moralmente correta, como se estas pessoas, vivendo e agindo sob aquele sistema, somente pudessem ser más.

Sistemas são implantados e manejados por pessoas, que são controladas por leis. Nos primórdios da assim chamada revolução industrial, o sistema capitalista ainda não havia atingido o estágio no qual as leis que deveriam regular as relações entre empregadores e empregados pudessem desempenhar o seu papel de forma efetiva. Marx, ao invés de concentrar os seus esforços no que poderia ter sido feito para aperfeiçoar o sistema de mercado através da criação de leis que coibissem a exploração dos trabalhadores e lhes assegurassem rendimentos justos, de acordo com a utilização da sua capacidade produtiva, escolheu trabalhar sobre a possibilidade de demolir completamente o sistema existente, tentando criar uma nova sociedade utópica, surgida diretamente da mente dos burocratas bem intencionados (a princípio) que a gerenciariam.

O comunismo, ou seja, aquelas pessoas que acreditam nesta ideologia, querem transformar a Terra numa imensa fábrica de propriedade de um único dono: o Estado na forma de um novo Leviatã, criado não para garantir a segurança dos seus cidadãos, mas a sua subsistência. Da mesma forma como para assegurar a segurança social é necessário que esta função seja assumida integralmente pelo Estado, com cada cidadão abrindo mão, em favor daquele, do seu direito de cuidar da sua defesa e da defesa daqueles que estão sob a sua égide, igualmente, para que o Estado possa assumir integralmente a tarefa de prover as necessidades secundárias de alimentação, habitação, vestuário, lazer, etc., de cada cidadão, estes últimos tem de abdicar ao seu direito natural de cuidar destas questões por si mesmos, entregando esta tarefa para o Estado.

A inspiração para uma sociedade-fábrica funcionando perfeitamente, com os cidadãos transformados em funcionários cuja única função é produzir, vem do exemplo no modelo capitalista de uma fábrica bem sucedida, produzindo plenamente e gerando riquezas que são distribuídas aos seus empregados na forma de salários e benefícios. Tal modelo existe atualmente e não é difícil de ser encontrado, com inúmeras empresas que se constituem em mini-universos sociais, onde os funcionários que nelas trabalham recebem todos os benefícios da vida em sociedade. Resta saber se o Estado é um empresário eficiente ao ponto de gerir a sociedade como uma fábrica bem sucedida — pois empresas podem ou não ser bem sucedidas.

A premissa número um do capitalismo como sendo o sistema econômico ideal para uso de seres humanos é a mesma do judaísmo e do cristianismo, a qual leva em consideração os acontecimentos narrados no livro de Gênesis, capítulo 1: o homem é um ser imperfeito, o qual não merece confiança absoluta uma vez que não possui em si a força moral necessária para dominar os seus apetites. Não conseguiu fazê-lo nem mesmo quando deveria atender a uma ordem oriunda do próprio Deus, numa situação aonde não havia a desculpa de escassez — pois o fruto da árvore proibida não era necessário para saciar a fome de nossos primeiros pais, e nem os outros frutos disponíveis para a sua alimentação eram desprezíveis, mas, ao contrário, diz a Escritura que “Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento” (Gn 2:9). Portanto, assim como Deus considerou que o homem era imperfeito e precisava estar sob a sanção de suas leis, ainda assim sendo capaz de viver em sociedade e cuidar da sua subsistência sem precisar criar um Estado todo poderoso com o fim de determinar suas ações econômicas, da mesma forma o sistema capitalista considera que os seres humanos estão aptos a cuidarem de si mesmos, precisando apenas de boas leis com o fim de controlar a tendência que os homens têm de não respeitarem a propriedade alheia — da mesma forma como Adão e Eva no paraíso não respeitaram a única árvore no jardim que Deus havia reservado como sendo de sua exclusiva propriedade. Já a premissa correspondente no sistema do comunismo é que os homens são intrinsecamente maus, totalmente incapazes de viver em liberdade e podendo decidir as suas ações por si mesmos, contudo devem ter as suas vidas completamente determinadas pelo Estado.

Da mesma forma como os comunistas acreditam piamente que os capitalistas, ou seja, os partidários da economia de mercado, são intrinsecamente maus apenas por estarem deste lado da ideologia, da mesma forma muitos defensores da livre economia cometem o erro oposto e correspondente de julgarem que qualquer ideia ou pessoa relacionada ao socialismo, ao Estado como auxiliador das pessoas necessitadas, é completamente condenável. Caso a teoria marxista da mais-valia se mostrasse correta, o que deveria ser feito é perguntar se seria possível o capitalista levar adiante o seu negócio de forma satisfatória, mesmo abrindo mão desta quantia em favor de seus empregados, e, então, dever-se-ia lutar de todas as formas para que o valor integral fosse sempre para as mãos de quem o houvesse gerado. Entretanto, se a mais-valia, ou parte dela, mostrasse ser uma reivindicação absoluta do empresário capitalista, ou seja, se ele não aceitasse desistir desta quantia sob pena de abandonar o seu investimento, então se teria descoberto que ela é a condição sine qua non do capitalismo.


José Cassais

Ciclos Vitais - O Sentido Racional da Força

É a energia sexual que condiciona o ânimo do ser humano, a sua disposição, e ela é a base onde se apoia o desenvolvimento da personalidade, sendo, pois, a determinante da qualidade emocional das experiências que o indivíduo viverá. Esta energia é cumulativa, e o seu efeito no indivíduo depende da sua quantidade e do seu estágio atual, ou seja, ela é zerada no exato momento em que ocorre um orgasmo e passa a acumular-se a partir deste instante até o seu esvaziamento quando da ocorrência de um novo orgasmo. A partir do momento em que começa a sua acumulação a energia sexual atravessa um padrão de ciclos, e a sua influência no ânimo do indivíduo depende do tipo de fase, ou ciclo, em que ela se encontra naquele momento.

Tudo o que inicia, ou reinicia, inaugura um ciclo cujo princípio manifesta sempre a polaridade positiva.

Toda polaridade inverte-se a partir de certo ponto, passando de positiva à negativa, ou vice-versa.

Um período de polaridade positiva seguido de outro de polaridade negativa formam um ciclo individual.

Cada ciclo é único em si mesmo. Os ciclos sucessivos apresentam diferentes peculiaridades.

Os ciclos menores, compostos de um período positivo e outro negativo, inserem-se dentro de ciclos maiores, e estes dentro de outros, compreendidos todos na duração de uma vida humana.

Um novo ciclo de energia na vida de um ser humano inicia-se no momento mesmo em que os estoques energéticos do indivíduo são liberados ou zerados. Em outras palavras: após o acontecimento de um orgasmo. A energia aumenta, então, de forma constante atravessando ciclos de modificações regulares e afetando o estado do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal. O ciclo geral é sempre interrompido e seguido pelo início de outro cada vez que a pessoa que o vive tem a experiência de um novo orgasmo. Apesar disso, as mudanças na personalidade decorrentes das experiências que alguém teve quando estava sob a influência da energia de um determinado estágio, no ciclo anterior, permanecem incorporadas ao seu caráter.  

Cada parte ou período de um ciclo, positiva ou negativa, tem a duração de sete dias — ou uma semana — de acordo com o período básico da vida neste planeta. Dentro desse período acontecem sete meios ciclos, de 24 horas cada um, compreendendo, portanto, três ciclos e meio. Após o zeramento da energia vital, quando da experiência de um orgasmo pelo indivíduo, a energia recomeça a acumular-se, manifestando a polaridade positiva neste primeiro período que tem a duração de sete dias de 24 horas — horas estas que começam a ser computadas exatamente após o acontecimento da liberação orgástica. Sendo, assim, o primeiro período todo ele uma manifestação de energia positiva, dentro deste mesmo período há fases de 24 horas cada uma, que também manifestam polaridades alternadas e que se iniciam com o ciclo maior, não acompanhando, portanto, o início e o fim do dia astronômico. Dois períodos de sete dias, um positivo e o outro negativo, formam um ciclo individual.

A vida humana desenvolve-se em ciclos, como as estações, a partir do nascimento. Os ciclos básicos têm a duração de três meses, como as estações, manifestando inicialmente a polaridade positiva, correspondendo à primavera, ou seja, os três primeiros meses de vida são positivos, os três seguintes negativos, correspondendo ao verão, os três seguintes positivos, correspondendo ao outono, e os três últimos negativos, correspondendo ao inverno, completando um ano, que é todo um ciclo maior, sendo ele mesmo de polaridade positiva, por ser o primeiro. O segundo ano é um ciclo maior de polaridade negativa, por ser o segundo, e inicia-se, igualmente, com um ciclo positivo de três meses. Os anos, por sua vez, inserem-se em ciclos de sete anos que se iniciam manifestando a polaridade positiva. Deste modo, alguém que completou doze ciclos de sete anos tem vivido um total de oitenta e quatro anos, cujos últimos sete foram negativos.

José Cassais

A Raridade da Poesia




Se o filósofo tem apenas uma grande ideia a respeito de um dos milhares de assuntos ou aspectos de assuntos que fazem parte das nossas conjecturas, o que ele pode fazer com ela? Pode, quando muito, escrever uma pequena tese, um aforismo ou máxima para ser apresentado ao mundo conjuntamente com outros textos que, como aquele, se esgotam em poucas linhas. O que não deixa de ser uma grande vantagem: poder declarar uma importante verdade com exíguas palavras. Porém, é nas mãos do poeta que domina a sua arte que a ideia simples, lapidar, tem a grande oportunidade de se apresentar nos atavios de uma verdadeira obra de arte: um poema completo. O poeta, de posse daquela ideia acalenta-a, fá-la crescer e ter companheiras — frases que se não a tornam mais compreensiva ao menos a cercam de beleza. O poeta tem direito a digressão, a descrição, ao repouso, em meio à enunciação de sua tese, à sombra da árvore frondosa, ao vôo com o pássaro no brilhante firmamento. Tudo isto se incorpora aquilo que poderia ser dito de maneira sucinta. E assim a idéia torna-se poesia, ergue-se como caule ao redor do qual se estendem os ramos de variadas formas, com folhas vistosas onde se escondem os pássaros e de onde eles desferem o seu canto que ecoa no vale ou colina aprazível onde a árvore foi plantada pela imaginação do poeta. Não bastassem estes recursos de que se serve o vate, ainda lhe estão disponíveis todas as possibilidades enriquecedoras das sílabas bem escolhidas e submetidas ao metro, enaltecendo o ritmo tão propício aos humanos ouvidos, e das rimas bem-feitas que são a sua coroa. É isto, portanto, o que tão conspicuamente distingue o poeta do filósofo ou do ensaísta. Têm, estes últimos, pensamentos grandiosos que envolvem muita argumentação para serem expostos com clareza, pois são sempre aqueles poucos temas que tem sido a preocupação constante da mente humana, tais como a forma ideal de governo, a ética mais justa, o sistema econômico perfeito, a imortalidade da alma... Temas estes que sempre foram muito discutidos e a respeito dos quais se escreveram a maioria dos livros sérios. Ninguém pode aventurar-se nesses assuntos sem servir-se desta montanha de erudição, sem interpretá-la ou contestá-la a sua maneira. Entretanto a poesia não diz respeito, geralmente, a estas poucas idéias grandiosas e antinomias kantianas, porém àquelas inumeráveis questões que são tão ou mais importantes, pois decidem o próprio rumo de nossa existência. A poesia é, em suma, existencialista no bom sentido. Até mesmo o poema épico, fantasista, transuda exemplos que nos auxiliam a viver e tomar decisões valiosas para o curso de nossas ações. O bom poeta é, então, além de mestre absoluto no trato com as palavras escritas, também aquele que abunda em grandes pensamentos iluminados, que não são, contudo, aqueles pensamentos abrigados no panteão dos temas mais clássicos da filosofia. Ele é até mesmo mais original, mais fecundo que o pensador limitado aos temas maiores, temas estes que já estão dados a milhares de anos. Pode ele fazer um lindo poema, por exemplo, aconselhando um amigo sobre como tratar uma mulher coquete e presunçosa. Ou, simplesmente, a recordar quadras queridas de sua existência, tais como a sua passagem por uma instituição de ensino e as amizades que lá desfrutou. O valor de uma lágrima. Coisas assim. Tudo, porém, dito e descrito com beleza, a beleza que só os bons poetas são capazes de capturar. Talvez porque a amem e procurem mais do que os outros homens. E nisto se resume a questão toda: o poeta busca, e às vezes pagando por isto o preço que a maioria dos homens não está disposta a pagar, a beleza mais pura e a oferece numa bandeja de ouro àqueles que, embora sentindo necessidade dessa beleza, não querem empenhar suas vidas para encontrá-la onde ela estiver — mas a querem mesmo assim. Como disse Keats, um daqueles que mais buscou e encontrou a beleza da vida: “A thing of beauty is a joy for ever”.


José Cassais

A Precedência da Linguagem

Primeiramente é a língua, a fala. Depois é que surge o pensamento. Mas isto segundo um critério de temporalidade, sem nenhuma referência a qualquer tipo de precedência ontológica ou metafísica. 

De acordo com esta perspectiva temporal, a linguagem falada vem em primeiro lugar. Porquanto, como é que se constrói o pensamento? Não está ele apoiado sempre em uma língua que é falada? Pensamos com palavras, e na ausência delas a nossa experiência intelectual não passa de um confuso amálgama de sensações e memórias que não podem ser comunicadas ou efetivamente analisadas, que nunca se traduzem em conceitos, e que não podem, portanto, aprimorar o que as experimenta nem a sociedade na qual ele está inserido.

Um homem que cresceu longe do convívio de qualquer outro ser da sua espécie, sem ter jamais ouvido qualquer palavra e sem ter exercitado o uso da linguagem, intelectualmente não deve se mostrar a altura de nenhum dos animais superiores, se é que não lhes será inferior neste particular — pois os animais, vivendo e crescendo entre os seus semelhantes, sempre desenvolvem o uso de algum tipo de linguagem baseada em gestos e sons significantes.

Ser humano algum nasce pensando, todavia, quando começa a fazê-lo é sempre em uma determinada linguagem ouvida, a linguagem de seus pais. Sons significantes são associados a intuições, a objetos, a ações, a sentimentos — a ideias. O pensamento se constrói invariavelmente em uma linguagem específica, nela se desenvolve e exerce a sua atividade, e, fora dela, não acontece de maneira alguma. Pensamos em português, em inglês ou javanês, entretanto, fora de uma determinada linguagem não pensamos, pelo menos não da forma como se entende o pensar de qualquer ser humano que fala e pensa utilizando uma língua, nestes dois níveis de expressão do ser. Ora, nenhum homem nasce já tendo o domínio de sua linguagem. Tal conquista se faz pelo ouvir e pelo praticar, falando, o que primeiramente se ouviu e gravou na memória, como pensamento onde o significante está sempre ligado ao significado. 

José Cassais

A Identidade do Gaúcho Rio-grandense


Atualmente nós, que nascemos e vivemos aqui no Rio Grande do Sul, estamos perdendo aquela energia que nos chegava da ligação mais estreita que tínhamos, no passado, com esta terra vibrante. Nossa mentalidade, nosso caráter, está cada vez mais sendo formado pela cultura predominante no centro do país via televisão, música, cinema e tudo o mais que por lá é produzido. Um modo de ser, pensar e manifestar-se o qual não tem relação alguma com aquele que poderíamos apresentar caso permitíssemos que a nossa personalidade fosse plasmada pela influencia do meio no qual nos encontramos imersos, de acordo com o que a experiência já mostrou ser fatual, tal modo está sendo aos poucos inoculado de forma insidiosa em cada um de nós. A mentalidade das novas gerações desta terra não poderá denominar-se “gaúcha” propriamente, uma vez que a criança (e o adulto, também) que despende várias horas, todo dia, em frente ao televisor assistindo programas produzidos no Rio de Janeiro e em São Paulo, ou ouvindo músicas também compostas naquelas plagas, é facilmente aculturada e termina por integrar à sua personalidade em formação o modo de ser específico dos personagens, reais ou virtuais, apresentados nestes programas e músicas. 

Mais do que qualquer outra influência são as novelas, verdadeira mania e ópio nacional, as maiores responsáveis pela formação, nas pessoas que vivem aqui no Rio Grande do Sul, de um caráter alienígena, totalmente oposto ao que iriam desenvolver se pudessem assistir a programas na TV que fossem gerados e produzidos a partir da matéria prima que é a nossa realidade essencial. Basta observar, por breve tempo, a maneira como os personagens de tais novelas e programas se exprimem e relacionam entre si para se alcançar a convicção de que a realidade que os tornou tal como são não faz par, de maneira alguma, com aquela que influencia ou influenciaria diretamente a formação das pessoas nascidas neste estado do Rio Grande do Sul, uma vez que os valores básicos da cultura riograndense são diversos aos daquela que viceja no centro do país e acima.

A continuarem as coisas do jeito como estão, dentro em breve só nos restará o melancólico cultivar das tradições. Pois de nada adianta cantar músicas de cunho regionalista e nunca vivenciar o que elas exprimem. Tal vivenciar deveria acontecer do amanhecer ao anoitecer, e até mesmo enquanto estivéssemos dormindo. Não é suficiente envergar a persona de “gaúcho” apenas aos domingos, no CTG. Ser gaúcho não significa andar de bombacha e chapéu, e falar grosso, mas sim permanecer, constantemente, em contato estreito com a terra, a fauna, a flora, os rios e lagoas, o vento, as estrelas e a luminosidade específica do nosso céu — e permitir que desse contato desabroche o nosso ser essencial. 

O que acima está escrito aplica-se, principalmente, aos alimentos oferecidos pelos médiuns eletrônicos, nossa dieta de bits indigestos. Não é que sejamos melhores do que os outros. Entretanto, isso não significa que por termos valor igual podemos ser aculturados. Qualquer povo ou etnia tem o direito e o dever de encontrar maneiras de preservar-se contra esta forma insidiosa e paralisante de aculturação que é a realizada pela comunicação de massa, muito embora, no âmbito individual, cada um possa decidir-se por um tipo particular qualquer de manifestação cultural, colhendo aqui e ali os modelos que julgar convenientes para a sua vida. Em última analise, os meios de comunicação podem fazer-nos muito inferiores aquilo em que iríamos tornar-nos a partir do uso da matéria prima que encontramos abundantemente ao nosso redor, em nossa cultura particular.

Em vista disso, o importante é que a escolha que devemos realizar, relativa àqueles itens que desejamos incorporar ao nosso estilo de vida, dirija-se naturalmente para tudo aquilo que pode ser considerado como produto de qualidade superior da atividade de culturas diversas. Desta maneira, no momento em que um dado novo passa a fazer parte da vida cultural mais geral do povo tal acontecimento desenvolveu-se a partir de opções individuais, o que é um processo natural, e não uma imposição feita a um grande número de pessoas sem passar por uma criteriosa seleção individual e a chancela da consciência de cada envolvido no processo. Deste modo, todo novo elemento incorporado ao ambiente cultural original mostrar-se-á perfeitamente adaptado às circunstâncias específicas em questão, além de útil. Estas aquisições fazem parte da evolução social da humanidade. 

O ponto central aqui desenvolvido é que, no processo de aculturação realizado pelos meios de comunicação de massa, certo tipo de mentalidade, ou maneira de ser, pode vir a instalar-se naqueles grupos submetidos a tal processo, inferior aqueles que poderiam ou deveriam ser neles formados caso permanecessem expostos tão somente as influências específicas de seu próprio ambiente — não imediatamente, mas de forma cumulativa.

Nenhuma imposição cultural massiva é desejável sem a chancela da escolha individual e plenamente consciente. A televisão é apenas um exemplo, o mais evidente. Contudo não é, de maneira alguma, o único meio para a concretização deste genocídio psicológico e espiritual.

José Cassais

(Este texto foi escrito há mais de quarenta anos. Atualmente, o processo de aculturação já praticamente se completou, não causando muita estranheza a semelhança constatada pela comparação entre o comportamento e caráter dos atuais “gaúchos” e o que se vê nos personagens das novelas da televisão brasileira.)

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

A Defesa da Verdade Contra os Ataques da Malícia

Os grandes ataques da maldade e da mentira contra a verdade são geralmente praticados de uma forma cínica e desapaixonada, uma vez que a última, por estar sempre do lado da justiça, não desperta paixões naqueles que contra ela dirigem as suas invectivas. Somente aquilo que sabemos ou acreditamos que é injusto no campo da ética e da moral desperta a nossa reação apaixonada. Todavia, aqueles que se levantam conscientemente contra o que sabem ser o certo o fazem por causa de seus próprios motivos tortuosos, estando, por causa disto, imunes as paixões despertadas pela defesa do que é verdadeiro.

As pessoas devem escolher se obedecem ou não aos ditames da verdade, contudo, independentemente de sua escolha, não podem queixar-se de que aquilo que ela lhes apresenta fira ou usurpe de alguma forma os seus direitos fundamentais. Pois ela, a verdade, atua sempre dentro dos limites da justiça, e a sua máxima maior é aquela que diz que não devemos fazer aos outros o que não desejamos que eles nos façam; ou que devemos tratá-los exatamente da maneira como desejamos que nos tratem. Portanto, ela, a verdade, não tem nada a ver com o despertar das paixões, uma vez que desliza constantemente sobre as águas serenas da justiça — e as paixões são sempre o fruto de uma situação que se impõe aos indivíduos como injusta, usurpando-lhes um direito que julgam merecer por natureza ou conquista. 

Disto se segue que no embate entre a verdade e a mentira aqueles que se posicionam do lado da segunda estão, já de saída, numa posição vantajosa e, não tendo sido injustamente atacados, não podem ser acusados de estarem agindo sob a influência de paixões. Por este motivo eles conseguem, geralmente, manter a serenidade e uma boa dose de cinismo no embate com os que defendem a causa do que é correto. Consequentemente, a grande dificuldade dos que se empenham em restabelecer os princípios do que é certo, os quais foram desvirtuados, reside justamente neste ponto: em se encontrarem, já de saída, colocados numa posição de terem de defender aquilo que consideram como seu direito fundamental, havendo sido injustamente atacados por um adversário enganador e que zomba da justa indignação de quem foi espoliado de seu direito mais legítimo, que é o do usufruto da verdade, e devendo lutar arduamente para restabelecê-lo.

Por este motivo, todo aquele que na defesa da boa causa se envolve numa controvérsia, objetivando derrubar as falácias dos sofistas, precisa estar consciente de que sob a sua pessoa pende não apenas o peso de dever agir influenciado pelas paixões despertadas através do uso cínico da mentira. Precisa, também, raciocinar corretamente ao mesmo tempo em que luta para manter a condição ideal da serenidade do espírito — dificuldade que talvez explique, em parte, a sobrevivência do erro na história da humanidade por um tão longo período de embates com o que é correto. Precisa, igualmente, estar consciente da possibilidade real, e quase sempre atual, de esta condição difícil ser utilizada contra si mesmo pelos seus adversários, lançando-lhe estes a pecha de irracional e de não ter controle sobre as suas emoções.

São estas, portanto, as duas armas poderosas que os sofistas têm no seu arsenal contra os que se opõem as suas enganações: em primeiro lugar, agem serenamente procurando destruir os alicerces de tudo o que é correto, obrigando os seus oponentes a reagirem na defesa da verdade sob o efeito psicológico de um ataque injusto e roubando-lhes, em parte, a possibilidade de raciocinarem de forma isenta, livres da influência de paixões (condição indispensável para a busca da verdade); em segundo lugar, ainda se aproveitam desta situação psicológica ruim para, cinicamente, acusarem aqueles que se opõem aos seus desígnios de serem irracionais e os estarem atacando diretamente. Deste modo levam a questão para o campo dos embates pessoais, quando, na verdade, a luta contra o erro deve ser primeiramente travada no campo das ideias.

Somente quando se consegue provar cristalinamente o processo errôneo de raciocínio daqueles que pretendem estabelecer a mentira como verdade é que se pode condená-los ao limbo histórico dos sofistas mentirosos — não antes.

Todavia, a vantagem inquestionável dos sofistas tem origem no fato tão natural de que todo aquele que se lança a um ataque contra a verdade o faz para justificar os seus próprios interesses escusos, preparando da melhor forma os argumentos falaciosos que pretende utilizar antes mesmo de desferir os seus golpes, e também sabe que não está sofrendo injustiça alguma, podendo, desta forma, manter a sua serenidade. Tem, além disto, consciência de que qualquer um que não tenha os seus mesmos objetivos e se indisponha contra as mentiras e sofismas que utiliza experimenta uma indignação perante a injustiça e subversão da verdade neles contida, ficando com o seu raciocínio comprometido. Se aquele que assim está sob a influência da paixão pela defesa da verdade dirige os seus ataques não contra os argumentos falaciosos em si, mas contra o que os utilizou, é por esse cinicamente acusado de não ser uma pessoa racional e de estar sendo intransigente.  

Consciente desta tática dos falaciosos e mentirosos, e havendo adquirido no embate com tais enganadores a consciência desta fragilidade tão humana, aquele que pretende defender qualquer verdade contra os ataques da malícia deve aprender a não se deixar envolver pelo cinismo de seus detratores, bastando para isto não lhes conferir nenhuma credibilidade, procurando manter sempre a mente serena, permitindo, deste modo, que se estabeleça nela um ambiente propício para o surgimento da razão, a qual sempre responde por si mesma a todos os que se lhe opõem, destruindo os argumentos sofísticos pela sua mera aparição. Havendo mostrado claramente o erro, aquele que estava sendo atacado pelo cinismo injusto dos inimigos do que é o certo e verdadeiro pode até mesmo dar-se ao luxo de zombar deles, assim como o profeta Elias fez com os profetas de Baal quando esses invocavam o nome daquele falso deus, o qual não podia responder-lhes de maneira alguma: “Clamai em altas vozes, porque ele é deus; pode ser que esteja meditando, ou atendendo a necessidades, ou de viagem, ou a dormir e despertará. (1Rs 18:27)"


José Cassais

A Condição Ideal da Sociedade

A única diferença aceitável entre os ricos e os pobres deveria ser o luxo. Entretanto, isto só aconteceria se aos últimos fosse permitido o acesso a tudo o que é necessário para se viver dignamente — quer dizer, se todos tivessem alimentação suficiente, moradias decentes, leis justas, vida saudável e tempo e oportunidades abundantes para o lazer ­­­­­­­­— nada menos do que isto. E, tudo isso, não apenas em um determinado país ou região, mas no mundo inteiro.

Se a situação fosse essa, então os que fossem considerados ricos, e dos quais a riqueza não precisaria de forma alguma ter limites (desde que, é claro, não se houvesse expandido às custas de nem um pedacinho do bem-estar devido a qualquer ser humano), despertariam em todos os outros tão somente sentimentos de admiração, nunca de inveja. Sua riqueza exerceria a função de uma espécie de garantia para toda a sociedade, como se fosse um celeiro abarrotado de mantimentos que podem ser utilizados em caso de necessidade; e também cumpriria o papel de servir como um estímulo para aqueles que desejassem se esforçar além do necessário com o fim de obter

o mínimo necessário para se viver naquela sociedade.

Não seria uma coisa abjeta, seria mesmo desimportante, alguém possuir um iate com banheiras de ouro se no mundo inteiro ninguém sentisse fome e todos possuíssem casas decentes para habitar, e se ninguém tivesse de trabalhar como escravo para desfrutar dessas coisas.


José Cassais

A Arte da Infelicidade

Os infelizes estão em toda a parte, e a condição essencial para se viver neste mundo sem ser incomodado é ser também um infeliz. Ou, ao menos, esconder a própria felicidade e agir como se fosse um deles.

O menor sinal de vida além daquele ao qual o infeliz está acostumado já desperta a sua preocupação. Como a vida para tal pessoa não atinge jamais o significado glorioso que lhe é inerente ela está mesmo pronta a entregar a sua por qualquer ninharia, pois sente que não está perdendo alguma coisa importante.

O infeliz está cercado, por todos os lados, de um mar de infelizes que dão a esta forma de existir, pelo seu grande número, a aparência formal de normalidade. A genuína felicidade desperta de imediato a sua desconfiança e inveja. Se ao menos os infelizes não fossem tão invejosos! Mas não: a falha espiritual que os faz ser como são é a mesma que os impede de atingirem a humildade em sua baixa condição, lançando-os no labirinto escuro da inveja. A causa à priori de seu mal é, pois, uma incapacidade congênita de desejarem o bem acima de qualquer outra coisa e a qualquer preço.

O infeliz é um fraco, não possui em si a força necessária para se lançar à conquista do máximo num mundo que se opõe a realização de seus objetivos, mesmo correndo o risco de falhar, exigindo-lhe esforço e perseverança constantes além de envolvê-lo fortemente em uma rede de tentações a fim de o desviar do caminho verdadeiro.

Desprovidos de qualidades reais os infelizes fazem da chatice a sua principal qualidade (se é que se pode chamá-la assim), e toda a satisfação que alcançam na vida é através da prática constante da chateação de seus semelhantes, a qual eles transformam, ao longo de suas miseráveis existências, na sua arte maior.


José Cassais