Cometer erros vale a pena quando se consegue enxergá-los depois e conhecer como se deveria ter agido ou deixado de agir em determinada situação.
_José Cassais
Cometer erros vale a pena quando se consegue enxergá-los depois e conhecer como se deveria ter agido ou deixado de agir em determinada situação.
_José Cassais
Bem utilizado é o tempo que se gasta analisando a maneira como agimos e como deveríamos ter agido nas diversas situações que surgiram, inesperadamente, em nosso caminho.
_José Cassais
Os paradoxos, ou “aporias”, de Zenão de Eléia repousam sobre um paralogismo a respeito do movimento como sendo coisa divisível na realidade própria, pois é bastante óbvio que o percurso de qualquer objeto que se movimenta é indivisível a não ser na imaginação, já que não sofre solução de continuidade.
Desta maneira, Zenão supunha, ou pretendia supor, que uma seta lançada em direção ao alvo poderia ter o seu movimento secionado na metade do percurso, e, logo em seguida, o restante do movimento secionado na metade, e assim continuamente, ad infinitum, e continuar sendo o mesmo movimento. Entretanto, um movimento contínuo não admite ser dividido desta forma arbitrária, apresentando-se sempre como unidade indivisível, e tornando-se, a cada interrupção, um outro movimento.
Em suma, o que Zenão fazia supor era que a flecha percorria o caminho até a metade em direção ao alvo e parava. Em seguida, recomeçava o seu movimento, indo até a metade do percurso restante e parando. E prosseguia, desta maneira, sem nunca chegar a atingir o alvo. É verdade que se a flecha procedesse deste jeito estranho, cessando e recomeçando a sua trajetória a cada metade de um percurso, ela jamais atingiria o alvo. No entanto, seus movimentos sucessivos, que não seriam um único movimento, iriam se apresentar cada vez menores, até se tornarem imperceptíveis ao olho humano, em seguida aos microscópios comuns, e, por fim, absolutamente imperceptíveis. Pois o espaço, secionado e medido desta forma, é infinitamente divisível.
O mesmo se dá com o paradoxo conhecido como “Aquiles e a tartaruga”, uma corrida singular. Aqui, a suposição a priori é que partindo a tartaruga no mesmo instante em que Aquiles, mas de uma certa distância a sua frente, ou seja, mais próxima do local assinalado para chegada (digamos que a vantagem da tartaruga seja de cinquenta metros), Aquiles percorre a metade da distância (vinte e cinco metros), enquanto que a tartaruga avança um pouco. Caso os dois fizessem uma parada neste instante, e em seguida reiniciassem a corrida, com certeza Aquiles jamais alcançaria o quelônio. Este, por outro lado, também não atingiria nunca o objetivo, embora parecesse aproximar-se dele cada vez mais — seus avanços tornar-se-iam imperceptíveis, pois o espaço pode ser secionado ao infinito. Entretanto, não é o que acontece com nossos dois competidores na realidade, uma vez que eles não param nunca. Logo, Aquiles não percorre jamais a metade do caminho, ou um terço do caminho, ou qualquer outra divisão deste, mas ultrapassa continuamente todos estes pontos.
Levando este raciocínio ao extremo, podemos imaginar que a tartaruga permanece parada, sem mover-se um centímetro para a frente. Ainda assim, se Aquiles corresse em sua direção somente até a metade do percurso e fizesse uma parada, recomeçando depois a proceder da mesma forma, jamais a alcançaria. Nem mesmo em um bilhão de anos, apesar da total inatividade do animal.
Por
este motivo é que as aporias de Zenão parecem funcionar, forçando-nos a
visualizar o movimento como se fosse uma linha estendendo-se no espaço, o qual
pode ser imaginado como no ato de visualizar a trajetória da flecha ou da
tartaruga. Tal linha, uma vez estendida e fixada na imaginação, pode ser interrompida
onde bem se quiser. O próprio tempo, contudo, não admite estes estratagemas. Não
se pode visualizar um segmento temporal com inicio, meio e fim. O tempo está
fora do reino da imaginação, ao contrário do espaço. O tempo não pode ser
imaginado. Mas, quer nos voltemos para o inicio da ação (passado), ou para o
seu final (futuro, ainda não ocorrido), tudo o que vemos em nossa imaginação,
no presente o vemos.
José
Cassais
Pergunta: Qual é a importância essencial do conhecimento?
Resposta: Tal importância
só pode ser relativa à sua capacidade de permanência e disponibilidade. Logo,
por ter a sua sede na memória que é, ela mesma, uma das nossas capacidades mais
instáveis o conhecimento deve ser considerado um atributo fugaz, o qual tem de ser
constantemente atualizado, quer dizer, recriado e fundido em uma nova
estrutura. A memória é ainda uma capacidade variável de um ser humano para
outro, ela que sustenta o conhecimento adquirido, mas ao mesmo tempo o desfaz
conforme nos distanciamos da experiência original (concreta ou abstrata) que o
gerou como conhecimento específico. Isto demonstra claramente o quanto pode ser
superficial e desnecessário qualquer tipo deste conhecimento não básico que
subsiste sem um uso determinado na existência mais prosaica e que só se mantém
na memória à custa de um interesse renovado num tema determinado – tal como se
um homem ás portas da morte estivesse sendo constantemente revivido pelas
técnicas da moderna medicina.
O conhecimento humano é
fluído, plástico por sua própria natureza, em constante evolução, jamais, porém
essencialmente indispensável ou inalienável da natureza humana verdadeira.
Nossa memória instável e variável nos permite mantermos certo nível de
conhecimento prático disponível, e todo profissional depende desta capacidade
para exercer o seu mister, desde que os aspectos relevantes de sua área de
conhecimento estejam também fixados e disponíveis em livros ou outra forma
qualquer de meios que se prestem à uma consulta eficaz.
Logo, os valores básicos
do ser devem ser procurados fora da estrutura deste conhecimento tão instável,
uma vez que o homem, individualmente, nunca foi senhor da totalidade do
conhecimento possível, enquanto que a felicidade que pode nos provir do contato
com a concretude da realidade é sempre uma necessidade imediata. Foi a
experiência desta realidade plenamente apropriada que gerou e nutriu os
diversos ramos válidos do saber. Até mesmo a filosofia tem sua utilidade, ainda
que permaneça no mesmo plano das outras ciências, como a engenharia ou a
física, que são ciências meramente explicativas, úteis quando ao seu
conhecimento seguem-se ações concretas destinadas a transformar a realidade a
fim de que os seres humanos desfrutem de uma vida mais confortável.
O conhecimento também não
pode trazer felicidade, pois elucida sobre as causas, mas delas não liberta os
indivíduos. O que devemos fazer, então, senão valorizarmos este conhecimento
evanescente tão somente no seu aspecto necessário e também prático, que é o que
nos permite trabalhar produtivamente a realidade a nos envolver de forma tão
objetiva?
Para que enchermo-nos de
conhecimento relativo, quer dizer, conhecimento evanescente, como se disto
dependesse a nossa própria humanidade?
José Cassais
Tive parte, ontem à noite, em uma experiência peculiarmente estranha. Encontrava-me participando de uma aula teórica sobre legislação e sinais de trânsito. Num determinado momento, a professora pediu aos alunos que preenchessem com respostas um teste sobre o assunto que estava sendo tratado, e depois solicitou que lessem todos, em voz alta, as questões com as respostas corretas. Os alunos começaram então a ler, nem todos no mesmo ritmo, nem todos lendo todas as palavras, alguns apenas balbuciando-as; uns com voz reduzida, outros, mais corajosos, falando mais alto.
Mas as vozes soando juntas guardavam uma certa harmonia, as frases repetidas com alguma defasagem faziam lembrar as antífonas do catolicismo e as ave-marias que os fiéis rezam em conjunto, assim como os versículos bíblicos que são lidos por todos nas igrejas evangélicas, quando o pastor solicita que assim o façam. Se fechasse os olhos e não prestasse atenção no sentido das palavras (como estava, mais ou menos, fazendo) sentir-me-ia (como realmente me senti) participando de um culto religioso.
Que estranho poder é este que reside nas
palavras de um texto lido em conjunto por uma congregação de seres humanos, o
qual empresta um sentido místico às prosaicas questões de um teste sobre sinais
de trânsito!
José Cassais
A vida bem pode ser como um destes jogos de videogame nos quais só conseguem passar para um estágio mais avançado e emocionante aqueles jogadores que tem habilidade suficiente para superar a dificuldade dos estágios iniciais — alguns jamais vão além do primeiro estágio. Também é verdade que só alcançam um progresso significativo no jogo aqueles indivíduos que não desistem com facilidade e despendem uma grande parte do seu tempo enfrentando a máquina, fascinados pela possibilidade do desvendamento da própria capacidade.
Cada pessoa escolhe o
jogo que melhor serve ao desenvolvimento de suas habilidades inatas, cada um
determina o seu próprio desafio. A vida não libera os estágios posteriores para
quem não se saiu bem nos iniciais. E ainda, como em qualquer situação onde se
joga para valer, há um tempo determinado para cada jogador provar sua
capacidade: não mais do que alguns minutos, se o adversário é uma máquina
eletrônica, e apenas o tempo útil da existência de um ser humano, se é a vida o
adversário.
José Cassais
Para tornar mais fácil o estudo da filosofia e as investigações pertinentes podemos não apenas mudar a nomenclatura, como expandir e alterar os conceitos.
Não devemos erigir Aristóteles para ser o grande legislador da filosofia, como se esta devesse ter uma constituição imutável, tal qual a das nações, e aquele devesse ser o seu constituinte supremo. Kant pensava desta maneira e legou-nos a sua própria tábua de categorias, que não devemos também aceitar como sendo a imutável expressão da verdade.
Para facilitar as coisas podemos mudar o termo “categorias” por outro muito mais compreensível no contexto do que se quer significar: “aspectos” da realidade. A realidade, portanto, tem vários aspectos, através dos quais ela se manifesta. Ninguém pode negar que o tempo é um dos aspectos da realidade, assim como o espaço. Além destes, podemos observar a quantidade, a extensão...
José
Cassais
A função número um do Estado é garantir a segurança dos seus indivíduos. A fim de exercê-la eficientemente ele primeiramente os despoja da possibilidade de agirem por sua própria conta na defesa de seus interesses. E nem poderia ser de outra forma, pois se tal não acontecesse o próprio estado não teria razão de existir, já que cada homem agiria de acordo com a sua própria concepção de justiça, e a do Estado seria apenas mais uma entre tantas. Porém, é do fato de ser única a sua justiça, ou seja, consensual, que ele retira toda a sua força.
Logo,
havendo tomado das mãos dos cidadãos a possibilidade de se defenderem
plenamente, de estarem constantemente preocupados com a própria segurança e
provendo-se dos meios para garanti-la, se o Estado negligencia esta sua função
primordial, permanecendo os cidadãos presos ao seu compromisso com ele e
impedidos de cuidarem do interesse da sua própria segurança, então o Estado se
transforma de defensor do bem maior de todos que dele dependem em inimigo
público número um, uma vez que entrega indefesos, nas mãos dos indivíduos
mal-intencionados, toda a comunidade dos que querem viver e produzir em paz e
segurança.
José
Cassais
De
acordo com a linguística, ou até mesmo com os ensinamentos da novíssima Ciência
Cognitiva, a linguagem humana com sua sintaxe é um dom inato, instintivo, tal
como o das aranhas para construir a teia ou o das aves que se guiam em suas
migrações pela posição das constelações. Segundo Saussure, Pinker, Chomsky e
outros importantes pensadores, dominar perfeitamente o mecanismo complexo da
linguagem não é privilégio das pessoas ditas cultas, mas algo inerente a uma
determinada etapa do desenvolvimento da mente, um mecanismo herdado e
programado para ativação num período recuado da existência humana: aos três ou
quatro anos de idade qualquer criança, independente da raça à qual pertença, já
domina tão bem o seu vernáculo, em relação à sintaxe e correta construção
gramatical das frases que emprega, quanto Platão ou Shakespeare dominavam os
seus nos seus períodos mais criativos.
Além das verdades que nos trazem as conclusões de estudos deste tipo, torna-se evidente a ocorrência nos escritos de muitos dos divulgadores destas descobertas tentativas, veladas ou muito abertas, de utilizá-las com vistas a justificar um nivelamento do ser humano, relativamente ao seu potencial cultural, ao nível do domínio das complexidades gramaticais, sem levar na devida consideração que o nosso desenvolvimento como seres cultos acontece sobre este estrato de conhecimento gramatical instintivo, independentemente de qualquer capacidade genética herdada.
Obviamente, para nós a sintaxe é o mais importante, pois a linguagem é o que nos diferencia conspicuamente dos outros seres vivos. É como se fosse um alicerce que já recebemos pronto, infrangível, perfeito nos mínimos detalhes. Contudo, o que se constrói sobre este alicerce depende de cada um — se bem que, às vezes, não apenas de nós, mas também daquilo que o ambiente nos disponibiliza. A tal construção cognominamos a “cultura” de cada um. Platão, no que diz respeito ao seu tesouro de linguagem, poderia estar no mesmo nível de riqueza que um infante ianomâmi, mas a construção que ele ergueu sobre este comum alicerce dificilmente será igualada pelo último.
Todos
os seres humanos possuem capacidade semelhante para desenvolver o domínio da sua
linguagem, independentemente da raça ou civilização à que pertençam, e merecem
por este motivo ser considerados como possuindo o mesmo status intelectual. O
diferencial dos indivíduos assenta-se sobre o que eles constroem sobre esta
base, pela maneira como “culturalizam” a sua linguagem particular. Neste
sentido nenhum homem é igual a outro, cada um atraindo para si, dos seus
semelhantes, níveis de consideração e de reconhecimento diferenciados. Em tal
sentido, nem mesmo em uma sociedade particular, por mais igualitária que ela seja,
dois indivíduos podem ser igualmente considerados, porquanto cada um desenvolve
o seu domínio da linguagem percorrendo os caminhos que seleciona para si mesmo
no reservatório cultural ao qual todas as pessoas naquele ambiente tem acesso.
Quanto mais evoluída a cultura de uma sociedade, o número das linguagens
técnicas a disposição de todos e o acesso a elas disponibilizado aos seus
cidadãos, maiores as possibilidades de crescimento intelectual diferenciado
para cada um deles.
José
Cassais
Escritores
sobre assuntos de economia, políticas sociais e afins utilizam a muito
conhecida divisão do mundo em três categorias, de acordo com certas definições:
primeiro segundo e terceiro mundos. Tal divisão, se bem que tenha sido
universalmente adotada, parece estar fundada em um conceito ultrapassado ou
inadequado, pois as condições dos países hoje em dia, uns em relações aos
outros, são tão variadas que não cabem em apenas três moldes. Por este motivo,
seria preciso acrescentar pelo menos mais uns três mundos com suas
características definidas de condições sociais e econômicas.
Se,
por um lado, é aceitável colocar países como os Estados Unidos da América, a
França e a Alemanha dentro da definição dada pela expressão "primeiro
mundo", por causa de seu nível muito semelhante de progresso social, por
outro lado, não é possível afirmar que Brasil e Nigéria, por exemplo, podem ser
encaixados na mesma categoria de "terceiro mundo". Se o Brasil está
nela, então a Nigéria e outros países do mesmo perfil teriam de ser ditos de
"quarto" ou de "quinto mundo". E o que dizer do Haiti, do
Quênia? O problema é que a definição de primeiro mundo se aplica muito bem aos
países para os quais é destinada, talvez a de segundo mundo seja um tanto
adequada aos seus países alvos, porém, a de terceiro mundo com certeza mascara
a realidade, criando um conceito na mente dos que a utilizam que é a média
ponderada de todos os países por ela englobados. Neste caso, se o leitor
preferir que o terceiro mundo seja exemplificado pelo Brasil ou pela Argentina,
tendo estes países como paradigmas e alvo das políticas econômicas unificadas
do primeiro mundo para com o terceiro, tal conceituação será injusta para com os
países que estão muito aquém daqueles no seu desenvolvimento econômico e
social. Tal concepção dificulta a compreensão do nível e tipo de justiça social
que os países abaixo do "segundo mundo" necessitam para a correção
das injustiças e desigualdades que os assolam. Quer dizer, se fosse possível
repartir igualitariamente toda a riqueza que existe no Brasil o problema deste
país estaria solucionado, mas se o mesmo procedimento fosse adotado na Nigéria
não mudaria quase nada. O Brasil sofre de um alto grau de injustiça
"interna", enquanto que, na Nigéria, a necessidade mais premente é de
justiça "externa".
Quantos
"mundos" serão necessários para englobar a diversidade de condições
neste planeta? Se partirmos de uma tabela com os países alinhados de acordo com
o seu nível de desenvolvimento medido pelo "índice de Gini", ou
qualquer outra medida justa das suas condições econômicas e sociais, poderemos
ter umas cinco ou seis divisões acuradas, e a ajuda para o desenvolvimento e
alívio imediato das dificuldades haverá de ser direcionada, em primeiro lugar,
para os mais necessitados do mundo. Deste modo, deveria haver um programa
mundial de ajuda para que os países do "último mundo" passassem para
o nível do "penúltimo", os quais seriam então juntamente considerados
como se encontrando no último nível e alvos do mesmo processo, até que toda a
humanidade alcançasse igual nível de desenvolvimento, ou, pelo menos, devessem
os países serem classificados como pertencentes, no máximo, a um segundo mundo.
José
Cassais
Quando Platão desenvolve seu argumento a respeito do “um que não é” ele parte de um conceito absurdo, contrário ao principio aristotélico de não contradição, e, consequentemente, todas as suas conclusões não são nada mais do que paralogismos. Platão pronuncia “o um”, atribuindo-lhe existência, e logo em seguida afirma que ele “não é”. Pois dizer o “um que não é”, é o mesmo que dizer “a água que não molha”, ou o “fogo que não queima”. No momento mesmo em que se diz “água” (supondo-se que esta esteja em seu estado liquido), pronuncia-se também a sua característica de ser molhada; no momento em que se diz “fogo” pronuncia-se a sua característica de queimar, e no momento mesmo em que se diz “o um” pronuncia-se o seu ser.
Logo, o “um que não
existe” não pode ser pronunciado com propriedade. O que não existe não pode ser
qualificado. Se não existe não pode ser “o um”. Com ele nada se relaciona, e a
partir dele nenhuma inferência é alcançada. Pode-se dizer: “se o um não existe”.
Mas não pode dizer-se: “o um que não existe”. Para fazer tal afirmativa, no
próprio ato de nomear o um utilizando o artigo definido, afirma-se a sua
existência, para logo em seguida (no caso de Platão) predicar-lhe o não ser.
Como é possível afirmar a existência de um ser e, em seguida, o contrário disto?
José Cassais
Ler e acompanhar mentalmente o desenvolvimento de um, ou vários, argumentos em um diálogo de Platão, mormente nos da última fase, tais como o “Parmênides” ou o “Sofista”, constitui-se em um exercício intelectual extenuante a exigir um esforço supremo de atenção — mas que não vai além disto. Não se encontram, ocultas no texto, grandes verdades, nenhuma descoberta metafísica realmente importante. Tudo se resume, conforme o conselho do próprio Parmênides ao jovem Sócrates, num exercitar-se em “conversa fútil” — Lalia. Argumentar para confundir somente — erística pura. O objetivo é, segundo Parmênides, sublime: exercitar a mente na procura da verdade. Todavia, encontrar-se-á alguma conclusão valiosa ao cabo das inúmeras sendas de argumentação por onde nos conduz o hábil Platão? Pois tudo se passa, na verdade (embora não tão declaradamente), como se entre um mestre e o seu discípulo o seguinte modelo de diálogo fosse constantemente utilizado:
-
E observe mais o
seguinte: um mais um tem como resultado dois?
-
Sim.
-
Mas dois e um não
tem como resultado o três?
-
Exatamente.
-
No três coexistem,
então, o dois e o um.
-
Claro.
-
Mas o dois contém
dois uns, conforme concluímos a pouco.
-
Foi assim mesmo
que concluímos.
-
Logo o três se
compõe tanto de três quanto de dois números?
-
Perfeitamente.
- Portanto, o dois e o três equivalem-se.
Quem
concorda com o sofista? O locutor imaginário de Platão ou nós, leitores atentos
de seu diálogo? Façamos nossas as palavras com as quais o já citado Parmênides
extravasa o seu assombro diante dos intrincados e intermináveis argumentos da
sofistica: “Que oceano de palavras devo atravessar no transcurso desta minha existência!"
José Cassais
A concorrência, juntamente com a livre iniciativa, é apresentada como a fórmula cor de rosa do elixir capaz de satisfazer a necessidade individual e social de afluência e progresso. Claramente aparecem, por trás desta fachada, os motivos que impelem os concorrentes em sua livre iniciativa: desejos de lucro e sucesso.
No modelo de sociedade puramente capitalista a margem de lucro dos produtos só é condicionada pela necessidade de adaptá-la as idiossincrasias do mercado. Ou seja: todos procuram, em princípio, oferecer seus produtos a um preço semelhante aos de seus concorrentes. Um preço abaixo da média praticada no mercado para um determinado produto pode ser eficaz quanto ao incremento das vendas, mas se for baixo demais, aquela vantagem será anulada pela diminuição do lucro. Quer dizer: pode ser mais lucrativo vender uma quantidade menor do produto a um preço mais elevado por unidade, se uma pequena queda no volume de vendas for compensada pelo aumento no lucro bruto.
Se estes fatores influenciam na formação dos preços maiores ou menores dos produtos, seus preços médios são na verdade determinados pelos custos de produção acrescidos de uma certa margem de lucro aceita como razoável e necessária — a qual varia para um determinado produto de acordo com a época, o lugar e as circunstâncias de sua produção e comercialização. Entretanto, dificilmente um produto qualquer se mantém por muito tempo nos limites de seu preço médio, pois a imperfeição do mecanismo capitalista puro encontra-se justamente na instabilidade da flutuante margem de lucro aceita dos produtos, a qual, por não ser fixa, acaba por determinar a oscilação entre condições sociais justas e injustas.
Diversos fatores alcançam elevar artificialmente a taxa de lucro aceita de um produto. Por exemplo: a escassez de um item essencial na alimentação do povo — desde que a sua procura seja inelástica — como é o caso com quase todos os itens que compõem a cesta básica das classes mais baixas, faz com que seus preços se elevem permanentemente sem que haja, na maioria das vezes, justificativa para este fato além do desejo de lucros elevados por parte dos produtores. Esta regra, da flutuação incontrolada da taxa de lucros, é uma das facetas do capitalismo que pode ser chamada, com toda a propriedade, de injusta, ainda assim permanecendo inexpugnável. Aplicada a comercialização de certos produtos considerados supérfluos, destinados a fruição de um pequeno número de indivíduos afluentes os quais dispõem de excedente monetário para gastar com eles, ela pode ser aceitável. Mas quando é o seu efeito, por exemplo, aumentar permanentemente o preço do feijão no Brasil, país onde essa leguminosa é um alimento essencial na mesa de milhões de seres humanos, torna-se uma regra profundamente injusta. Pois quando após uma safra ruim a produção de feijão retorna aos seus níveis ideais o preço mantém-se no patamar anteriormente atingido por um período artificialmente prolongado. E desta forma o produtor, utilizando menos terra, trabalho humano e maquinaria, percebe o mesmo lucro anteriormente obtido com uma produção maior, com o consequente empobrecimento das classes menos favorecidas.
Trata-se, esta, de uma distorção inerente ao sistema capitalista. Mas não é apenas a instabilidade da natureza que influi na variação prejudicial dos preços das mercadorias. A formação de estoques com vistas a especulação, e os monopólios, obtém resultados semelhantes. Contudo, geralmente, o aumento permanente e injustificado nos preços dos produtos de primeira necessidade é uma consequência natural da redução da oferta ocasionada por imprevistos na produção. Quando isto acontece, logo os trabalhadores pressionam por maiores salários. Com preços e salários mais elevados, o dinheiro em circulação torna-se escasso, adquirindo um valor maior, e o governo deve emitir mais daquele meio de troca, ou notas de valores mais altos.
A solução para todo este dilema só pode ser o controle da taxa de lucro
de alguns produtos aceita pela sociedade, através de uma análise constante do
mercado e das condições da produção, objetivando determinar quanto cada produto
pode render para o produtor em uma situação atípica e também em uma situação
normal.
José Cassais
Daquelas pessoas que se esforçam para implantar o comunismo em uma sociedade a minoria, que estudou os princípios do comunismo e sabe que ele não funciona ou funciona mal em comparação com o simples sistema de mercado, age com má intenção, em causa própria e sem levar em consideração o destino da própria sociedade; os outros, que são a grande maioria, simplesmente não entendem nada de ciência econômica, sentindo prazer em cultivar a sua indignação natural contra aqueles que se sentem justificados em apodar de classes exploradoras. Pertencem a um tipo de pessoas que aprecia sentir-se mais justa do que os outros, apontando-lhes um dedo acusador, para as quais pessoas o comunismo fornece os motivos que aparentemente justificam tal atitude — motivos que elas não se preocupam em avaliar em profundidade, e nem mesmo tem condições para tal empreitada.
Substancialmente, pessoas são boas ou más. Da mesma forma, sistemas de produção são eficientes ou ineficientes. Acidentalmente, pessoas podem ser eficientes ou ineficientes, e, da mesma forma, acidentalmente sistemas de produção podem ser bons ou maus se considerados como causas e nos seus efeitos sobre a vida das pessoas. Seres vivos, enquanto dotados de moralidade (ou conhecimento do certo e do errado), não podem ser julgados por categorias de eficiência ou ineficiência, assim como sistemas físicos de produção não podem ser julgados por categorias de bondade e maldade. Os que acreditam no marxismo acusam o sistema de produção capitalista de ser intrinsecamente mau, o que se revela um erro, pois não é possível emitir um julgamento moral a respeito de um sistema. Parece como se os críticos marxistas do sistema capitalista atribuíssem a este último a propriedade de retirar das pessoas a possibilidade de agirem de maneira moralmente correta, como se estas pessoas, vivendo e agindo sob aquele sistema, somente pudessem ser más.
Sistemas são implantados e manejados por pessoas, que são controladas por leis. Nos primórdios da assim chamada revolução industrial, o sistema capitalista ainda não havia atingido o estágio no qual as leis que deveriam regular as relações entre empregadores e empregados pudessem desempenhar o seu papel de forma efetiva. Marx, ao invés de concentrar os seus esforços no que poderia ter sido feito para aperfeiçoar o sistema de mercado através da criação de leis que coibissem a exploração dos trabalhadores e lhes assegurassem rendimentos justos, de acordo com a utilização da sua capacidade produtiva, escolheu trabalhar sobre a possibilidade de demolir completamente o sistema existente, tentando criar uma nova sociedade utópica, surgida diretamente da mente dos burocratas bem intencionados (a princípio) que a gerenciariam.
O comunismo, ou seja, aquelas pessoas que acreditam nesta ideologia, querem transformar a Terra numa imensa fábrica de propriedade de um único dono: o Estado na forma de um novo Leviatã, criado não para garantir a segurança dos seus cidadãos, mas a sua subsistência. Da mesma forma como para assegurar a segurança social é necessário que esta função seja assumida integralmente pelo Estado, com cada cidadão abrindo mão, em favor daquele, do seu direito de cuidar da sua defesa e da defesa daqueles que estão sob a sua égide, igualmente, para que o Estado possa assumir integralmente a tarefa de prover as necessidades secundárias de alimentação, habitação, vestuário, lazer, etc., de cada cidadão, estes últimos tem de abdicar ao seu direito natural de cuidar destas questões por si mesmos, entregando esta tarefa para o Estado.
A inspiração para uma sociedade-fábrica funcionando perfeitamente, com os cidadãos transformados em funcionários cuja única função é produzir, vem do exemplo no modelo capitalista de uma fábrica bem sucedida, produzindo plenamente e gerando riquezas que são distribuídas aos seus empregados na forma de salários e benefícios. Tal modelo existe atualmente e não é difícil de ser encontrado, com inúmeras empresas que se constituem em mini-universos sociais, onde os funcionários que nelas trabalham recebem todos os benefícios da vida em sociedade. Resta saber se o Estado é um empresário eficiente ao ponto de gerir a sociedade como uma fábrica bem sucedida — pois empresas podem ou não ser bem sucedidas.
A premissa número um do capitalismo como sendo o sistema econômico ideal para uso de seres humanos é a mesma do judaísmo e do cristianismo, a qual leva em consideração os acontecimentos narrados no livro de Gênesis, capítulo 1: o homem é um ser imperfeito, o qual não merece confiança absoluta uma vez que não possui em si a força moral necessária para dominar os seus apetites. Não conseguiu fazê-lo nem mesmo quando deveria atender a uma ordem oriunda do próprio Deus, numa situação aonde não havia a desculpa de escassez — pois o fruto da árvore proibida não era necessário para saciar a fome de nossos primeiros pais, e nem os outros frutos disponíveis para a sua alimentação eram desprezíveis, mas, ao contrário, diz a Escritura que “Do solo fez o Senhor Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento” (Gn 2:9). Portanto, assim como Deus considerou que o homem era imperfeito e precisava estar sob a sanção de suas leis, ainda assim sendo capaz de viver em sociedade e cuidar da sua subsistência sem precisar criar um Estado todo poderoso com o fim de determinar suas ações econômicas, da mesma forma o sistema capitalista considera que os seres humanos estão aptos a cuidarem de si mesmos, precisando apenas de boas leis com o fim de controlar a tendência que os homens têm de não respeitarem a propriedade alheia — da mesma forma como Adão e Eva no paraíso não respeitaram a única árvore no jardim que Deus havia reservado como sendo de sua exclusiva propriedade. Já a premissa correspondente no sistema do comunismo é que os homens são intrinsecamente maus, totalmente incapazes de viver em liberdade e podendo decidir as suas ações por si mesmos, contudo devem ter as suas vidas completamente determinadas pelo Estado.
Da mesma forma como os comunistas acreditam piamente que os capitalistas, ou seja, os partidários da economia de mercado, são intrinsecamente maus apenas por estarem deste lado da ideologia, da mesma forma muitos defensores da livre economia cometem o erro oposto e correspondente de julgarem que qualquer ideia ou pessoa relacionada ao socialismo, ao Estado como auxiliador das pessoas necessitadas, é completamente condenável. Caso a teoria marxista da mais-valia se mostrasse correta, o que deveria ser feito é perguntar se seria possível o capitalista levar adiante o seu negócio de forma satisfatória, mesmo abrindo mão desta quantia em favor de seus empregados, e, então, dever-se-ia lutar de todas as formas para que o valor integral fosse sempre para as mãos de quem o houvesse gerado. Entretanto, se a mais-valia, ou parte dela, mostrasse ser uma reivindicação absoluta do empresário capitalista, ou seja, se ele não aceitasse desistir desta quantia sob pena de abandonar o seu investimento, então se teria descoberto que ela é a condição sine qua non do capitalismo.
José Cassais
É a energia sexual que condiciona o ânimo do ser humano, a sua disposição, e ela é a base onde se apoia o desenvolvimento da personalidade, sendo, pois, a determinante da qualidade emocional das experiências que o indivíduo viverá. Esta energia é cumulativa, e o seu efeito no indivíduo depende da sua quantidade e do seu estágio atual, ou seja, ela é zerada no exato momento em que ocorre um orgasmo e passa a acumular-se a partir deste instante até o seu esvaziamento quando da ocorrência de um novo orgasmo. A partir do momento em que começa a sua acumulação a energia sexual atravessa um padrão de ciclos, e a sua influência no ânimo do indivíduo depende do tipo de fase, ou ciclo, em que ela se encontra naquele momento.
Tudo o que inicia, ou reinicia, inaugura
um ciclo cujo princípio manifesta sempre a polaridade positiva.
Toda polaridade inverte-se a partir de
certo ponto, passando de positiva à negativa, ou vice-versa.
Um período de polaridade positiva seguido
de outro de polaridade negativa formam um ciclo individual.
Cada ciclo é único em si mesmo. Os ciclos
sucessivos apresentam diferentes peculiaridades.
Os ciclos menores, compostos de um período positivo e outro negativo, inserem-se dentro de ciclos maiores, e estes dentro de outros, compreendidos todos na duração de uma vida humana.
Um novo ciclo de energia na vida de um ser humano inicia-se no momento mesmo em que os estoques energéticos do indivíduo são liberados ou zerados. Em outras palavras: após o acontecimento de um orgasmo. A energia aumenta, então, de forma constante atravessando ciclos de modificações regulares e afetando o estado do indivíduo e o seu desenvolvimento pessoal. O ciclo geral é sempre interrompido e seguido pelo início de outro cada vez que a pessoa que o vive tem a experiência de um novo orgasmo. Apesar disso, as mudanças na personalidade decorrentes das experiências que alguém teve quando estava sob a influência da energia de um determinado estágio, no ciclo anterior, permanecem incorporadas ao seu caráter.
Cada parte ou período de um ciclo, positiva ou negativa, tem a duração de sete dias — ou uma semana — de acordo com o período básico da vida neste planeta. Dentro desse período acontecem sete meios ciclos, de 24 horas cada um, compreendendo, portanto, três ciclos e meio. Após o zeramento da energia vital, quando da experiência de um orgasmo pelo indivíduo, a energia recomeça a acumular-se, manifestando a polaridade positiva neste primeiro período que tem a duração de sete dias de 24 horas — horas estas que começam a ser computadas exatamente após o acontecimento da liberação orgástica. Sendo, assim, o primeiro período todo ele uma manifestação de energia positiva, dentro deste mesmo período há fases de 24 horas cada uma, que também manifestam polaridades alternadas e que se iniciam com o ciclo maior, não acompanhando, portanto, o início e o fim do dia astronômico. Dois períodos de sete dias, um positivo e o outro negativo, formam um ciclo individual.
A vida humana desenvolve-se em ciclos, como as estações, a partir do nascimento. Os ciclos básicos têm a duração de três meses, como as estações, manifestando inicialmente a polaridade positiva, correspondendo à primavera, ou seja, os três primeiros meses de vida são positivos, os três seguintes negativos, correspondendo ao verão, os três seguintes positivos, correspondendo ao outono, e os três últimos negativos, correspondendo ao inverno, completando um ano, que é todo um ciclo maior, sendo ele mesmo de polaridade positiva, por ser o primeiro. O segundo ano é um ciclo maior de polaridade negativa, por ser o segundo, e inicia-se, igualmente, com um ciclo positivo de três meses. Os anos, por sua vez, inserem-se em ciclos de sete anos que se iniciam manifestando a polaridade positiva. Deste modo, alguém que completou doze ciclos de sete anos tem vivido um total de oitenta e quatro anos, cujos últimos sete foram negativos.
José Cassais
Aristóteles afirmou, na sua Poética, que o assunto da tragédia ou da epopeia resume-se em dois itens: despertar no espectador (ou leitor) o terror e/ou a piedade. Seria apenas com a geração destes sentimentos que a narrativa deveria se envolver. Parece, entretanto, e embora sendo correto que o âmbito das reações emocionais a serem cultivadas deva ser limitado de alguma forma, que Aristóteles, buscando ser o mais “técnico” possível, limitou demais. Não há duvida de que a piedade e o terror estão entre os sentimentos a serem incluídos no âmbito do argumento dramático, mas também é evidente que devam ser incluídas (o que na vida real sempre acontece) as emoções que lhes são contrárias. Piedade é, na verdade, apenas outro nome para o amor, ou melhor, uma de suas espécies, sendo o amor um gênero tão abrangente. A forma de se amar um personagem envolto na teia de uma tragédia é sentirmos por ele completa empatia, quer dizer, a piedade em si mesma. Mas a piedade, ou o amor, conduzem-nos a este outro sentimento supremo e contrário, que é o ódio, capaz de prender nossa atenção e interessar-nos tanto quanto aquele. E é justamente com este sentimento que Homero nos enlaça logo no início da Ilíada – o ódio, ou a ira, de Aquiles. Nenhum leitor deixa de simpatizar imediatamente com Aquiles, e de, juntamente com ele, ver despertar em si o sentimento crescente de ira, conforme absorve a descrição da maneira tão injusta com a qual o arrogante, o pérfido Agamêmnon o ultraja. Não é o sentimento compassivo da piedade que nos coloca do lado da causa de Aquiles, é sim a empatia com que fazemos nossa a sua ira, embora se possa questionar o ponto até onde ele estendeu as suas conseqüências. Portanto, o ódio (a ser despertado no leitor) também encontra o seu lugar na tragédia. De igual modo, não somente o terror é capaz de interessar-nos tão profundamente, como também o seu contrário, que é o sentimento do sublime, o encantamento que sentimos despertar em nós quando o nosso espírito se encontra perfeitamente tranquilo diante de uma cena de grande beleza. Por este motivo interessam-nos nas tragédias não somente os acontecimentos dramáticos, mas também as descrições bucólicas com as suas cenas pastorais cheias de encanto agreste, pelas quais somos levados a vislumbrar a Beleza, esteja ela disfarçada seja em que em forma for.
José
Cassais
Se o filósofo tem apenas uma grande ideia a respeito de um dos milhares de assuntos ou aspectos de assuntos que fazem parte das nossas conjecturas, o que ele pode fazer com ela? Pode, quando muito, escrever uma pequena tese, um aforismo ou máxima para ser apresentado ao mundo conjuntamente com outros textos que, como aquele, se esgotam em poucas linhas. O que não deixa de ser uma grande vantagem: poder declarar uma importante verdade com exíguas palavras. Porém, é nas mãos do poeta que domina a sua arte que a ideia simples, lapidar, tem a grande oportunidade de se apresentar nos atavios de uma verdadeira obra de arte: um poema completo. O poeta, de posse daquela ideia acalenta-a, fá-la crescer e ter companheiras — frases que se não a tornam mais compreensiva ao menos a cercam de beleza. O poeta tem direito a digressão, a descrição, ao repouso, em meio à enunciação de sua tese, à sombra da árvore frondosa, ao vôo com o pássaro no brilhante firmamento. Tudo isto se incorpora aquilo que poderia ser dito de maneira sucinta. E assim a idéia torna-se poesia, ergue-se como caule ao redor do qual se estendem os ramos de variadas formas, com folhas vistosas onde se escondem os pássaros e de onde eles desferem o seu canto que ecoa no vale ou colina aprazível onde a árvore foi plantada pela imaginação do poeta. Não bastassem estes recursos de que se serve o vate, ainda lhe estão disponíveis todas as possibilidades enriquecedoras das sílabas bem escolhidas e submetidas ao metro, enaltecendo o ritmo tão propício aos humanos ouvidos, e das rimas bem-feitas que são a sua coroa. É isto, portanto, o que tão conspicuamente distingue o poeta do filósofo ou do ensaísta. Têm, estes últimos, pensamentos grandiosos que envolvem muita argumentação para serem expostos com clareza, pois são sempre aqueles poucos temas que tem sido a preocupação constante da mente humana, tais como a forma ideal de governo, a ética mais justa, o sistema econômico perfeito, a imortalidade da alma... Temas estes que sempre foram muito discutidos e a respeito dos quais se escreveram a maioria dos livros sérios. Ninguém pode aventurar-se nesses assuntos sem servir-se desta montanha de erudição, sem interpretá-la ou contestá-la a sua maneira. Entretanto a poesia não diz respeito, geralmente, a estas poucas idéias grandiosas e antinomias kantianas, porém àquelas inumeráveis questões que são tão ou mais importantes, pois decidem o próprio rumo de nossa existência. A poesia é, em suma, existencialista no bom sentido. Até mesmo o poema épico, fantasista, transuda exemplos que nos auxiliam a viver e tomar decisões valiosas para o curso de nossas ações. O bom poeta é, então, além de mestre absoluto no trato com as palavras escritas, também aquele que abunda em grandes pensamentos iluminados, que não são, contudo, aqueles pensamentos abrigados no panteão dos temas mais clássicos da filosofia. Ele é até mesmo mais original, mais fecundo que o pensador limitado aos temas maiores, temas estes que já estão dados a milhares de anos. Pode ele fazer um lindo poema, por exemplo, aconselhando um amigo sobre como tratar uma mulher coquete e presunçosa. Ou, simplesmente, a recordar quadras queridas de sua existência, tais como a sua passagem por uma instituição de ensino e as amizades que lá desfrutou. O valor de uma lágrima. Coisas assim. Tudo, porém, dito e descrito com beleza, a beleza que só os bons poetas são capazes de capturar. Talvez porque a amem e procurem mais do que os outros homens. E nisto se resume a questão toda: o poeta busca, e às vezes pagando por isto o preço que a maioria dos homens não está disposta a pagar, a beleza mais pura e a oferece numa bandeja de ouro àqueles que, embora sentindo necessidade dessa beleza, não querem empenhar suas vidas para encontrá-la onde ela estiver — mas a querem mesmo assim. Como disse Keats, um daqueles que mais buscou e encontrou a beleza da vida: “A thing of beauty is a joy for ever”.
José Cassais
A única diferença aceitável entre os ricos e os pobres deveria ser o luxo. Entretanto, isto só aconteceria se aos últimos fosse permitido o acesso a tudo o que é necessário para se viver dignamente — quer dizer, se todos tivessem alimentação suficiente, moradias decentes, leis justas, vida saudável e tempo e oportunidades abundantes para o lazer — nada menos do que isto. E, tudo isso, não apenas em um determinado país ou região, mas no mundo inteiro.
Se a situação fosse essa, então os que fossem considerados ricos, e dos quais a
riqueza não precisaria de forma alguma ter limites (desde que, é claro,
não se houvesse expandido às custas de nem um pedacinho do bem-estar devido
a qualquer ser humano), despertariam em todos os outros tão somente
sentimentos de admiração, nunca de inveja. Sua riqueza exerceria a função
de uma espécie de garantia para toda a sociedade, como se fosse um celeiro
abarrotado de mantimentos que podem ser utilizados em caso de necessidade;
e também cumpriria o papel de servir como um estímulo para aqueles
que desejassem se esforçar além do necessário com o fim de obter
o mínimo necessário para se viver naquela sociedade.
Não seria uma coisa abjeta, seria mesmo desimportante, alguém possuir um iate
com banheiras de ouro se no mundo inteiro ninguém sentisse fome e
todos possuíssem casas decentes para habitar, e se ninguém tivesse de
trabalhar como escravo para desfrutar dessas coisas.
José Cassais
Os infelizes estão em toda a parte, e a condição essencial para se viver neste mundo sem ser incomodado é ser também um infeliz. Ou, ao menos, esconder a própria felicidade e agir como se fosse um deles.
O menor sinal de vida além daquele ao qual o infeliz está acostumado já desperta a sua preocupação. Como a vida para tal pessoa não atinge jamais o significado glorioso que lhe é inerente ela está mesmo pronta a entregar a sua por qualquer ninharia, pois sente que não está perdendo alguma coisa importante.
O infeliz está cercado, por todos os lados, de um mar de infelizes que dão a esta forma de existir, pelo seu grande número, a aparência formal de normalidade. A genuína felicidade desperta de imediato a sua desconfiança e inveja. Se ao menos os infelizes não fossem tão invejosos! Mas não: a falha espiritual que os faz ser como são é a mesma que os impede de atingirem a humildade em sua baixa condição, lançando-os no labirinto escuro da inveja. A causa à priori de seu mal é, pois, uma incapacidade congênita de desejarem o bem acima de qualquer outra coisa e a qualquer preço.
O infeliz é um fraco, não possui em si a força necessária para se lançar à conquista do máximo num mundo que se opõe a realização de seus objetivos, mesmo correndo o risco de falhar, exigindo-lhe esforço e perseverança constantes além de envolvê-lo fortemente em uma rede de tentações a fim de o desviar do caminho verdadeiro.
Desprovidos
de qualidades reais os infelizes fazem da chatice a sua principal qualidade (se
é que se pode chamá-la assim), e toda a satisfação que alcançam na vida é
através da prática constante da chateação de seus semelhantes, a qual eles
transformam, ao longo de suas miseráveis existências, na sua arte maior.
José Cassais