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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

O Enigma do Quatro – Ian Caldwell & Dustin Thomason

O Enigma do Quatro começa como alguns dos livros de Dan Brown (vide Inferno e Ponto de Impacto): com a morte. Dois cavaleiros são enviados para entregar uma carta, sendo avisados de que morreriam se a carta fosse aberta por eles. Eles o fazem, cercando-se de precauções, mas o recipiente tem como saber com certeza se a carta foi aberta pelos portadores. A curiosidade matou o gato, como se diz.

A estória se desenvolve ao redor de um livro que realmente existe (foi publicado em 1499), e que tem um nome difícil de pronunciar: o "Hypnerotomachia Poliphili". a identidade do autor é incerta, mas supõe-se que tenha sido um frade de nome Francisco. Seu nome aparece em um acróstico que pode ser encontrado juntando-se a primeira letra de cada um dos capítulos que compõem o livro: "Poliam Frater Franciscus Columna Peramavati". Isto significa "Irmão Francisco Colonna amava muito a Polia".

Na contracapa, a propaganda do livro compara o estilo dos autores aos de Scott Fitzgerald, Umberto Eco e Dan Brown somados. De muitos leitores a crítica não se deixa seduzir pelo elogio superlativo, mas taxa o livro de cansativo. Na verdade, em algum momento na trama, falando a respeito do Hypnerotomachia, alguém diz que é exatamente assim, difícil de acompanhar, e, de repente o leitor começa a pensar: Parece que os autores estão descrevendo o seu próprio livro. Não que este seja mal escrito ou se torne desinteressante, mas acontece que o leitor, tendo sido lembrado de Dan Brown espera ser conduzido naquele ritmo alucinante de situações cheias de ação e obstáculos aparentemente intransponíveis à cada parágrafo, os quais são a marca registrada do autor de O Código Da Vinci. Até a metade do livro, mais ou menos, o autor dedica-se muito a descrever a convivência dos personagens principais, suas peripécias em Princeton, sua vida psicológica, sem levar o leitor para o centro da ação, a qual ele aguarda ansiosamente. Apesar disso, estas descrições não são isentas de méritos. A partir deste ponto, entretanto, o livro se torna digno de comparação com as obras  de Dan Brown, misturando situações complexas e desafios ao raciocínio do leitor, levando-o a apelar para a sua possível experiência cultural humanista e o gosto por enigmas de alto nível. A partir de sua quarta parte, mais ou menos, o enredo continua neste ritmo elevado, ao mesmo tempo em que a qualidade puramente literária do livro aumenta exponencialmente, fazendo jus à comparação com o estilo de Fitzgerald e Eco.

Na verdade, parece que o cerne da questão tem a ver com a passagem do tempo e o que fazemos com o que temos dele disponível. Como disse um certo escritor, "Tão pouco tempo, tantas conspirações." A maior parte das grandes obras literárias tem a ver com a celeridade dos acontecimentos, sendo apenas uma reflexão sobre o sentido da vida humana em seu embate com a fluidez de um tempo limitado e a maneira como nós, seres em constante mutação para melhor e para pior, psicológica e fisicamente, conduzimos nossas vidas neste contexto.

Existe uma semelhança essencial entre as tramas do livro de Caldwell e Thomason e o de Dan Brown, anteriormente citado. Neste último, é revelado que o Santo Graal é na verdade um tesouro escondido, sendo composto de livros raros antiquíssimos ocultos em algum lugar que só pode ser encontrado pela decifração de vários enigmas eruditos. Estes livros seriam aqueles que foram preservados dentre os que o imperador Constantino intentou destruir completamente quando achou que era uma boa ideia, de acordo com Dan Brown, deificar Jesus Cristo (o qual, anteriormente, teria sido reconhecido apenas como um sábio líder) a fim de basear nesta crença a unificação de seu reino. Tais livros, cabalmente, provariam a origem prosaica do Cristianismo e da pessoa de Cristo. O livro de Caldwell e Thomason também conduz à descoberta de um tesouro em lugar oculto, o qual só poderia ser encontrado pela decifração de enigmas criados para serem analisados por pessoas com uma sólida cultura humanista. Este tesouro também é, principalmente, uma coleção de livros raros da antiguidade, os quais se supunham perdidos para sempre, guardados junto de um grande número de obras de arte do mesmo nível. E é aí que os dois livros parecem complementar um ao outro: enquanto que o tesouro de O Código da Vinci emanciparia a humanidade da crença ultrapassada no Cristianismo, cujo tema central é a divindade de Cristo, o tesouro literário de O Enigma do Quatro a abasteceria com farto material para começar a reconstruir uma cultura puramente humanista. Juntando os enredos: se os dois tesouros fossem encontrados, seria o começo de uma era dourada para a humanidade, do ponto de vista dos admiradores da cultura do Renascimento.

Além disso, o livro descrito no O Enigma do Quatro causa uma espécie de atração poderosa e excludente nas pessoas que se interessam pela decifração de seus enigmas, terminando por envolver suas vidas inteiras nesta tentativa, tornando-se o ponto central de suas existências e transmitindo seu fascínio até mesmo para a posteridade dos que com ele se envolvem. As descobertas dos eruditos são transmitidas aos seus colegas e às novas gerações que irão levar adiante o processo de decifração. Tal poder de atrair os maiores esforços das mentes mais capazes, com vistas a compreensão plena, só existe em um outro livro, muito mais antigo que o Hypnerotomachia: a própria Bíblia Sagrada. Desde que esta começou a ser escrita também teve início um esforço de estudo e compreensão de seu texto que envolveu inúmeros homens, os quais acreditavam nela a ponto de entregarem, muitas vezes, a própria vida para não irem contra os seus ensinamentos.  Na época do Velho Testamento estes eram os rabinos e escribas, os mestres da lei sempre envolvidos no estudo e preservação da Palavra de Deus. A partir do Novo Testamento tal esforço se intensificou, e surgiram estudiosos de alto nível, transformando o estudo da Bíblia numa verdadeira ciência envolvendo várias disciplinas, tais como o estudo de línguas antigas, exegese, teologia, tipologia, humanidades, arqueologia, história, fatos atuais e, principalmente, o fascinante estudo das profecias. Milhares de homens dedicaram suas vidas inteiras a este tópico unicamente, apoiando-se nas descobertas de seus predecessores e acrescentando a elas suas próprias interpretações. Milhares de livros foram escritos relatando esta relação de homens capacitados com o texto de um único livro no intuito de decifrar suas mensagens proféticas. Eis a fonte na qual, provavelmente, os autores foram buscar inspiração para o envolvimento tão intenso dos personagens de seu livro com esta obra renascentista, o Hypnerotomachia Poliphili.

 

José Cassais

A Mulher de 30 Anos - Balzac

Nenhuma literatura no mundo dedicou-se mais a mostrar as causas do adultério feminino e a explorar os meandros da psicologia destas mulheres infiéis do que a francesa: Mme. de Renal (O Vermelho e o Negro, de Sthendal), Madame Bovary (romance homônimo, de Flaubert), Mme. Henebeau (personagem secundária mas com laivos de generalidade francesa nas causas de sua infidelidade, no romance de Zola, Germinal), Mme. de L'Aiglemont (A Mulher de Trinta Anos, de Balzac)...etc. A lista continua e pode ser aumentada com novas leituras. No último romance citado fica evidente que a causa do adultério à francesa é sempre invariável: não tanto o onipresente desejo masculino de conquista, mas bem mais do que isto, o fato de que o marido a ser traído é, invariavelmente, um homem bem-sucedido, contudo que não corresponde à expectativa romântica exacerbada das heroínas dos romances. Estas são, via de regra, mulheres burguesas que vivem sonhando com a plenitude amorosa que os seus maridos burgueses não lhes podem dar. Não há nada de reprovável nestes maridos. Eles até fazem filhos! Mas, pensando bem, talvez haja algo de reprovável neles, quando lemos que o velho pai da ainda solteira ... de L'Aiglemont, preocupa-se exacerbadamente com a infelicidade futura da filha se ela vier a casar-se com o jovem oficial de Napoleão que atrai sua simpatia. O pai vê que a filha não será feliz com ele, uma vez que não irá desfrutar do tipo de amor com o qual uma mulher realiza todos os seus mais caros sonhos amorosos. È comovedor contemplar um pai que se preocupa tanto com tal espécie de felicidade na vida futura de sua filha. Logo no início do livro deparamo-nos com este grande amor paternal, e só isto já é suficiente para desculpar as fraquezas do romance encontradas em capítulos posteriores, mormente naqueles que falam sobre o envolvimento da filha de ... com um pirata assassino. Todavia, depois deste lapso a narrativa retoma sua profundidade inicial e vai além dela. O pai morre e a filha segue os ditames da sua própria vontade, casando-se com o coruscante oficial.


José Caasais

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Joel Goldman - A Última Testemunha

A Última Testemunha – Joel Goldman

 

O detetive Lou Mason, de A Última Testemunha, é do tipo que quando está sendo ameaçado fica fazendo piadas, dizendo frases espirituosas. Dá para imaginá-lo com o rosto impassível, driblando emocionalmente o perigo com o uso da ironia. Se morrer ele será, ao menos, aquele que contará a última piada. Não dá para não pensar em Sylvester Stalone como sendo uma inspiração para o autor, o qual faz, realmente, uma citação no livro a respeito de um dos personagens do ator. Uma característica dos figurantes principais é que eles são bem pouco sofisticados se comparados aos personagens de outros autores que seguem mais ou menos a mesma linha, tais como John Grisham e Sidney Sheldon. Sua alimentação nunca é escolhida no cardápio de um restaurante de luxo, servida com prataria e pratos sofisticados. Gostam mesmo é de um bom hambúrguer com cerveja. Ou com milk-shake de chocolate. Argh! 

O livro é uma espécie de romance policial no estilo "jurídico," com muitas descrições interessantes de como as coisas acontecem nos tribunais. O autor explica os meandros dos julgamentos e da corrupção política enquanto desenvolve o seu enredo. Além do mais, tem bastante ação e diálogos inteligentes na forma de um clássico no melhor estilo "whodonit" (quemfezisso), desenvolvido principalmente por Conan Doyle e Agatha Christie. O autor coloca várias pistas que deixam o leitor tentando descobrir quem é o assassino, e, no final, revela mais alguns detalhes esclarecedores. Boa leitura para quem gosta de ação e diálogos inteligentes e espirituosos misturados com detalhes técnicos os quais todos querem conhecer sobre o funcionamento da lei e dos tribunais.


josé Cassais

domingo, 19 de janeiro de 2014

Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald

Logo nas primeiras páginas, o estilo adotado pelo autor me fez lembrar o Ulisses, de James Joyce — do qual, aliás, também só havia lido as primeiras páginas. Esta impressão foi confirmada por uma alusão a Joyce, mais adiante. Veem-se, então, algumas pessoas que se hospedam em um hotel numa região costeira da França, estando reunidas em um lugar aprazível à beira-mar, como se estivessem de férias. Na verdade, a situação delas é superior à daqueles que se encontram de férias no mesmo local, pois estão ali por quanto tempo desejarem, aproveitando as amenidades da estação. São suficientemente ricas para não estarem limitadas pelo tempo exíguo que o comum dos mortais chama de "férias." Quando o tempo mudar, ou quando desejarem condições atmosféricas diferentes, partirão. Além disso, possuem, todas, uma apreciável bagagem cultural, característica comum daqueles que não tem a mínima preocupação financeira, sendo que muitas delas são expoentes em áreas culturais ou científicas: literatura, cinema, psiquiatria... suas experiências são mais sofisticadas que as das outras pessoas, sendo matizadas com um toque de poesia e cultura. O homem comum observa o tempo à beira-mar e imagina se vai haver sol ou chuva, isto é, se o clima permitir-lhe-á banhar-se ou adquirir um bronzeado. O homem de cultura e livre de preocupações financeiras é senhor de seu tempo, e, se as condições atmosféricas mudam, ele sabe apreciar o céu tempestuoso, as ondas revoltas, o frio cortante. Estas coisas lhe sobrevêm como poesia.

O livro não parece ter um enredo, de início, e se o tem seria preciso escavar muito para descobri-lo sob a superfície de tantos episódios. Rosemary, jovem e bem-sucedida atriz de cinema, é a moça que aparece na praia observando os grupos já formados aos quais, logo, ela estará integrada. Num deles encontra-se Dick, psiquiatra autor de vários textos reconhecidos e casado com Nicole, mulher jovem com problemas mentais e ex-paciente dele, herdeira de uma fortuna considerável. Até um certo ponto o livro parece chato, apesar do encantamento que se sente ao entrar na intimidade destas pessoas que podem desfrutar a vida de uma maneira inacessível para a imensa maioria dos seres humanos, sem a preocupação do dinheiro, senhoras absolutas de seu próprio tempo e equipadas com uma bagagem cultural que lhes confere um gosto refinado — coisa que os muito ricos de países que não tem uma tradição de cultura clássica não parecem possuir. Como diz o autor do livro, elas aprenderam a apreciar qualidade antes do que quantidade. Logo, porém, o leitor descobre o que há na obra de Fitzgerald que a torna digna de uma leitura atenta e talvez, até mesmo, de uma releitura: certas cenas de tensão dramática desenvolvidas brilhantemente. Surge a possibilidade de um duelo. Mckisco, aspirante a escritor, por conta de uma discussão intempestiva, vê-se desafiado por Barban, um legionário e aventureiro arrogante. Quantas vezes, na vida de todas as pessoas, não surgem situações deste tipo, com o fim de testar o nosso caráter! Em última instância, o que ganhamos delas é conhecermos melhor a nós mesmos. Ou pagamos com a vida, tentando aprender. Mckisco consegue, com a ajuda de um pouco de álcool, desenvencilhar-se dignamente da situação. Ele faz o que se espera dele, arrisca-se o mínimo possível, tem sorte e sai ileso. O fanfarrão Barban gostaria de arriscar-se mais, porém existem regras para os duelos.

Apesar de contar a sua estória do ponto de vista ora de um personagem ora de outro o livro é, na verdade, a história de um casamento. Mesmo sentindo-se atraído por Rosemary, Dick compreende que o seu destino está misteriosamente ligado ao de Nicole, mulher com sérios problemas de personalidade que chegam às raias da doença, por conta de traumas de infância. Entretanto, mesmo esta ligação, a qual confere um sentido mais permanente à existência dos seres humanos, pode ser arruinada se um dos dois envolvidos achar que deve ou precisa ter novas experiências. Mas não se trata apenas disto. A traição, para Dick, é um episódio que não consegue abalar o seu compromisso com Nicole; para ela é o início de uma nova vida. Algumas pessoas não tem a fidelidade como um dos traços permanentes de seu caráter. A recompensa de Dick: ir afundando na obscuridade de uma vida profissional cada vez mais limitada. Ele era, conforme diz o autor do livro, um homem pertencente a maioria, com uma só ideia importante. Já havia entregue sua contribuição para a sociedade.


José Cassais

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Sidney Sheldon - A Ira dos Anjos

A Ira dos Anjos - Sidney Sheldon

 

Este parece ser um livro sem enredo. O autor começa o seu romance contando a história de uma mulher esforçada, a qual consegue tornar-se advogada e está tentando seguir a mesma carreira do pai. Graças a sua inteligência excepcional ela arranja um emprego num conceituado escritório de advocacia em Nova Iorque, pertencente a um famoso promotor que tem planos de tornar-se presidente dos Estados Unidos. Porém, já no seu primeiro caso, no qual trabalha como coadjuvante, acaba envolvendo-se numa confusão, sendo usada pela máfia com o fim de fazer com que o seu patrão perca a causa. Ela cai em desgraça, tornando-se uma pária no mundo judicial de Nova Iorque. Parece, então, que o livro vai desenvolver um certo enredo de ação, com Jennifer, a advogada azarada, lutando contra a poderosa máfia até conseguir, após mil peripécias, derrotar aqueles que a colocaram naquela difícil situação. Mas o autor escolhe outra linha, e passa a contar várias estórias paralelas.

Jennifer resolve continuar sua vida profissional como advogada, dividindo um escritório, instalado num pardieiro, com dois profissionais de segundo time. Ela começa a pegar causas difíceis para defender, tendo sempre como inimigo o mesmo promotor que fora seu primeiro patrão e cujos planos havia atrapalhado. No entanto, ela ganha todas as causas perdidas que aceita defender, e para este fim o autor faz com que utilize uns recursos bem ingênuos, baseado na pressuposição de que todos os júris populares são manipuláveis. Nada de novo sob o sol. A vida de Jennifer é uma reedição da de Cinderela, que de empregada doméstica aviltada torna-se princesa frequentadora dos bailes da corte, até chegar a desposar o príncipe herdeiro. Ela passa a conhecer pessoas maravilhosas. Este adjetivo, "maravilhoso (a)," começa a surgir muito frequentemente nas descrições de tudo o que existe nas situações que lhe aparecem. A prataria dos jantares é sempre maravilhosa.

Até este ponto, frustram-se as expectativas criadas, e o autor parece estar contando várias estórias, em um estilo de folhetim feminino ultrarromântico. Lá pelo meio do livro, o clima começa a mudar a partir do momento em que o filho de Jennifer é raptado por um psicopata. Neste ponto, Sheldon introduz a narrativa de ação, do tipo em que se corre contra o tempo para salvar uma vida. Tudo se passa em uma única noite, e as horas são dadas uma a uma, até os últimos minutos, quando o criminoso prometeu executar a criança. Dan Brown, que admitiu ter ganhado muitas ideias para seus enredos da leitura de um livro de Sidney Sheldon, o "Doomsday Conspiracy," deve ter relido muitas vezes este capítulo. Até o final o livro mantém certo dinamismo, com a máfia tentando acabar com o senador candidato a presidente dos Estados Unidos que quer acabar com ela, e que se torna realmente presidente, e que por acaso também é o pai do filho de Jennifer. Porém, apesar das cenas de ação concentrada, o livro se desenrola por um período bastante longo, com a vida de Jennifer atingindo uma certa velhice ou maturidade.

Portanto, do ponto de vista do tempo, o livro não tem um estilo definido, certos episódios completando-se em poucas horas, com muita ação embutida, outros desenvolvendo-se no período de uma existência, e outros nem tanto. No final, tudo se concentra na vida de Jennifer, uma advogada que o autor tenta apresentar como um exemplo de caráter, mas que tem uma queda por defender os criminosos acusados dos crimes mais hediondos e vai sendo envolvida cada vez mais na teia que as consequências de suas más escolhas tecem ao redor de sua vida. "Aqui se faz, aqui se paga," parece ser a mensagem que o autor tenta passar, além de, vaidade de vaidades, "tudo é vaidade e correr atrás do vento (Ecl 2:17)."


Sidney Sheldon

sábado, 4 de maio de 2013

Edwin Muir - A Estrutura do Romance

Muir divide os romances em cinco espécies principais: romances de ação, de personagem, dramáticos, de crônica e epocal. Além destes, menciona também um tipo de romance que se preocupa apenas em narrar uma sucessão de eventos ou peripécias um tanto desconexos, mas interessantes, porém só consegue mostrar um representante da espécie, The Famous Histories of Dr. Faustus, versão inglesa.

O romance de ação é aquele em que o personagem, ou as personagens, não são muito desenvolvidos, o que importa mesmo é a sucessão de acontecimentos. Não que não haja personagens relevantes, porém eles não são relevantes em si mesmos, e sim em relação ao curso da ação. Muir cita como exemplos desta espécie, A Ilha do Tesouro, de Stevenson, e Ivanhoé, de Scott.

O romance de personagem é o contrário do romance de ação: nele, os personagens é que são importantes, e a ação tem um papel irrelevante. O que interessa é apresentar as personagens mais interessantes, definir suas personalidades. Muir cita, como representantes desta espécie, Roderick Random, Tom Jones, Martin Chuzzlewit. Todavia foi Vanity Fair, de Thackeray, o exemplo máximo deste estilo, pois neste romance o autor rompeu de vez com a trama. Nele é somente do desenrolar dos acontecimentos sociais que surgem os incidentes, com praticamente nenhuma manifestação de algo que se possa chamar de enredo. 

O romance dramático é na verdade o romance de interação, ou seja, nele os personagens e a ação não estão separados, mas interagem, modificando-se e modificando mutuamente um ao outro. Parece que, de acordo com a visão de Muir, o romance dramático incorpora o de ação, e ele passa a ocupar-se apenas daquele, e, como oposto a ele, o romance de personagens. A diferença essencial entre os dois é que o romance de personagem se desenvolve no espaço, não se encontrando nele uma consciência da passagem do tempo (ou do tempo psicológico). Seu principal objetivo é montar um painel da sociedade humana, com seu variado plantel de personagens que se movimentam por um amplo espaço geográfico — porém não de uma sociedade específica, e sim da sociedade em geral. Já o romance dramático está confinado a um espaço limitado, pois nele o fim é tornar conspícua a passagem do tempo no qual se desenrolam os dramas da vida, propriamente ditos. O destino inelutável só pode manifestar-se no tempo, como a música, enquanto que o romance de personagem, com sua dependência do espaço físico, têm estreita afinidade com as artes plásticas, como a pintura e a escultura.

O romance de crônica é uma espécie do romance dramático, apenas que naquele a passagem do tempo assume um caráter mais objetivo, ou seja, a ação se encerra num período convencional, o do tempo medido por calendários, em longos intervalos, com o objetivo de mostrar os grandes ciclos da vida em que os personagens nascem, crescem, envelhecem e morrem, e as sucessões das gerações.

O romance epocal concentra-se, como o próprio nome esclarece, em uma época especifica, num determinado lugar. Tal objetivo leva, inevitavelmente, a que o autor se especialize naquele período específico, produzindo uma obra que tem muita afinidade com o jornalismo informativo, com descrições técnicas minuciosas; e segundo Muir esta é, de todas as formas do romance, a mais desprovida de qualidades interessantes. Procurando mostrar uma imagem da sociedade, ainda que esta seja apanhada em um período muito limitado, o romance epocal teria afinidade com o romance de personagem.

É muito interessante a maneira como Muir vê a manifestação artística, como uma limitação auto imposta do artista, concentrando-se em apenas um aspecto da realidade, ou em uma de suas categorias, afixada ao tempo, ao espaço, ou a alguma de suas manifestações, objetivando a apreensão do sentido por trás das aparências, numa espécie de cristalização da realidade em oposição ao fluxo indeterminado de consciência no qual nos encontramos imersos e pelo qual somos arrastados, experimentando apenas flashes de realidade, ou de consciência, estourando aqui e ali.


José Cassais


Hobbes - Leviatã

Hobbes é considerado um dos grandes escritores políticos, lado a lado com Aristóteles, Montesquieau e outros do mesmo porte. As restrições mais contundentes ao seu pensamento se referem ao absolutismo por ele conspicuamente defendido. Neste ponto, acredito que Hobbes está correto, e que o único poder real é aquele que ordena as leis, ou seja, o legislativo, e os outros poderes lhe são subordinados, devendo-lhe inclusive a designação como poder: o judiciário, julgando somente de acordo com o que foi determinado por aquele, e o executivo colocando em pratica as decisões dos outros dois poderes. Acontece que quando o poder soberano, nas suas três manifestações mais gerais, legislativo, judiciário e executivo, está corretamente enfeixado nas mãos de uma única persona (assim chamada por causa do seu caráter representativo), o poder que se destaca por ser mais visível, por seu caráter de ação, é o executivo. Logo, aquela característica que o torna claramente o mais subordinado dos três poderes, graças a visibilidade que lhe confere também o torna o mais apreciado e honrado aos olhos da imensa maioria dos cidadãos comuns, que sempre dispensa maior honra aquilo que é mais conspícuo. 

 

A solução para este dilema é simples: tornar o executivo, claramente, aos olhos de todos os cidadãos, o que ele em realidade é — o mais subordinado dos poderes. Isto poderia ser feito se houvesse mais mecanismos e ocasiões em que o executivo devesse ser submetido a avaliação do legislativo, ou, o que seria o curso de ação mais natural neste caso: que o povo elegesse o legislativo, e este, o executivo e o judiciário, mantendo o poder de avaliá-los e substitui-los sempre que julgasse apropriado. Além disto, reunindo-se o povo para eleger os seus legisladores a intervalos regulares, deveria substituir apenas aqueles que julgasse necessário faze-lo, permanecendo os outros em seus cargos enquanto os cidadãos os julgassem idôneos para legislarem em seu favor e no da nação (pois muitas vezes os interesses da nação são contrários aos dos indivíduos que a ela pertencem).

 

Hobbes só peca quando tenta levar suas teorias sobre o absolutismo para o terreno religioso, tentando colocar nas mãos do soberano também o poder sobre a igreja.

 

José Cassais

Aristóteles - Política

Aristóteles nos diz que existem dois tipos de escravidão: um que é legal, ou legítimo, o qual determina que alguém pode ser escravizado por causa das circunstâncias que o colocaram na situação de poder sê-lo, como quando este alguém é capturado numa ação de guerra; e o outro tipo é o natural, que se justifica pelo fato de certos indivíduos (ou povos, melhor dizendo) já nascerem com uma predisposição natural (genética, dir-se-ia hoje), para serem escravos, porque neles as únicas qualidades latentes seriam as manuais, as de diligência e obediência, justamente as que fazem com que o sujeito seja idealmente aproveitado no papel de escravo. O que leva à conclusão seguinte: a guerra que é travada para a captura deste tipo de indivíduos, quando eles se recusam à por si mesmos sujeitarem-se à escravidão, pode ser considerada uma guerra justa. Aristóteles considera o primeiro tipo de escravidão antinatural, ao contrário do segundo tipo.

Que absurdo, todavia, considerar que possam haver povos inteiros com características de escravos! Não é muito mais sábio que às pessoas particulares seja dada a oportunidade de decidirem qual o papel que desejam desempenhar na sociedade? Pois é óbvio que ser escravo, assim como ser qualquer outra coisa, tem suas vantagens e desvantagens, e que sempre houve escravidão, hoje em dia mais do que nunca. São bem conhecidos episódios da história em que escravos, confrontados com a possibilidade de emancipação, manifestaram o desejo de continuarem usufruindo o status quo da escravidão. A própria Bíblia supõe uma situação na qual um servo a ponto de ser libertado por seu senhor prefere permanecer na sua casa, servindo-o, sendo-lhe então furada a orelha com uma sovela, o que o marcaria como uma espécie de servo voluntário para sempre.

A escravidão é uma coisa com a qual o ser humano pode conviver, desde que não seja desumana, pois tem sido uma instituição inevitável desde o início da civilização até os dias atuais. A maior parte da humanidade que trabalha, hoje em dia, sabe que isto é verdade. Vivemos numa escravidão ideal. Desde muito cedo somos colocados em escolas onde, privados da liberdade de ir e vir e fazermos o que quisermos, iniciamos uma longa etapa de aprendizado destinada a nos preparar para o trabalho que ainda nos aguarda em um futuro distante. Nestas escolas passamos a maior parte do tempo livre de nossas infâncias e juventudes, aprendendo coisas que estamos fadados a esquecer completamente na sua maior parte. Que perda de tempo!

José Cassais

Complexo de Portnoy - Philip Roth

O autor do livro é judeu, e o seu livro parece uma versão judaica do “Apanhador no Campo de Centeio”, do Sallinger. A escrita acompanha o ritmo do pensamento: não é literatura, é pensamento escrito no ato. Onde acontecem descrições de ações, estas servem apenas como desencadeadores do jorro de pensamentos que a elas se seguem. A emoção despertada por este tipo de leitura é do mesmo tipo daquela dos que assistem ao Big Brother televisivo: acompanhar de um posto privilegiado a intimidade comum de pessoas comuns. No caso o acesso é à um ambiente ainda mais restrito do que a exterioridade da vida intima escancarada: o próprio pensamento do observado.

O que faz o encanto deste tipo de voyeurismo é que a personalidade em observação seja interessante — daí o cuidado extremo na escolha dos participantes do show na televisão, onde todos precisam ter qualidades além da simples beleza física. Quer dizer: um certo caráter, ao gosto dos telespectadores. Personalidade. E isto, o Portnoy, aliás, o Roth, tem bastante. Porquanto, se já rende um tremendo ibope colocar pessoas comuns, ainda que interessantes, num ambiente fechado a fim de que as suas vidas e personalidades sejam minuciosamente observadas no horário nobre da televisão, quanto mais transpondo a devassa para uma instância literária. E considerando que os leitores são, em sua maioria, não-judeus, não valerá a pena acompanhar os detalhes mais íntimos da vida e dos pensamentos de um jovem judeu de família tradicional? O qual, ainda por cima, tem a coragem de nos mostrar em close-up todas aquelas particularidades que fazem parte das nossas próprias vidas e que acreditamos que façam parte da vida das outras pessoas, mas que deixamos confinadas ao foro das mais íntimas e incompartilhadas experiências? Em certos episódios do livro, o próprio Roth nos mostra quanta curiosidade existe de parte a parte a respeito dos detalhes corriqueiros da vida comezinha, tanto dos judeus em relação aos “goys”, quanto vice-versa.

Todos queremos saber o que os outros realmente pensam e fazem, além da simples aparência que nos oferece a exterioridade do visível. Este é o exercício que torna tão atraentes programas do tipo Big Brother: o desvendamento da personalidade alheia, o desmascaramento, a observação implacável do caráter numa situação onde ele deve se revelar claramente, cedo ou tarde. Como apreciamos desvendar o verdadeiro caráter de um outro ser humano! Como é gratificante a constatação de que os outros são exatamente como nós, uma mistura de bem e mal, boas intenções limitadas pelo egoísmo que faz parte quase indissolúvel do nosso ser. E também aqueles que dirigem os rumos da sociedade sabem tirar proveito dos meios de comunicação, preparando-nos, através de programas como aquele, para que aceitemos a vigilância constante de nossas mais íntimas exterioridades — o que, certamente, será cada vez mais real num futuro não muito distante.

É óbvio que Alexander Portnoy é um sujeito mau caráter, mas o que ele quer mesmo é despertar a nossa empatia, que pensemos que ele é, sim, um mau caráter, mas que nós também somos, e quem mais não é?


Aristóteles - Poética

Aristóteles afirma, na sua Poética, que o assunto da tragédia ou da epopeia se resume em dois itens apenas: despertar no espectador (ou leitor) o terror e/ou a piedade. Deveria ser apenas com a geração destes sentimentos que a narrativa teria de se envolver. Parece, entretanto, e embora sendo correto que o âmbito das reações emocionais a serem cultivadas deva ser limitado de alguma forma, que Aristóteles, buscando ser o mais “técnico” possível, limitou demais. Não há dúvida de que a piedade e o terror estão entre os sentimentos a serem incluídos no âmbito do argumento dramático, mas também é evidente que devam ser incluídas (o que na vida real sempre acontece) as emoções que lhes são contrárias. Piedade é, na verdade, apenas um outro nome para o amor, ou melhor, uma de suas espécies, sendo o amor um gênero tão abrangente. A forma de se amar um personagem envolto na teia de uma tragédia é sentirmos por ele completa empatia, quer dizer, a piedade em si mesma. Mas a piedade ou o amor conduzem-nos a este outro sentimento supremo e contrário, que é o ódio, um sentimento capaz de prender nossa atenção e interessar-nos tanto quanto aquele.

E é justamente com este sentimento que Homero nos enlaça logo no início da Ilíada – o ódio, ou a ira de Aquiles. Nenhum leitor deixa de simpatizar imediatamente com Aquiles e de, juntamente com ele, ver despertar em si o sentimento crescente de ira conforme absorve a descrição da maneira tão injusta com a qual o arrogante, o pérfido Agamémnon o ultraja. Não é o sentimento compassivo da piedade que nos coloca do lado da causa de Aquiles, é, sim, a empatia com que fazemos nossa a sua ira, embora se possa questionar o ponto até onde ele estendeu as suas consequências. Portanto, o ódio (a ser despertado no leitor) também encontra o seu lugar na tragédia. De igual modo, não somente o terror é capaz de interessar-nos tão profundamente, como também o seu contrário, que é o sentimento do sublime, o encantamento que sentimos despertar em nós quando o nosso espírito se encontra perfeitamente tranquilo diante de uma cena de grande beleza. Por este motivo interessam-nos nas tragédias não somente os acontecimentos dramáticos, mas também as descrições bucólicas, com as suas cenas pastorais cheias de encanto agreste, pelas quais somos levados a vislumbrar a Beleza, esteja ela disfarçada seja em que em forma for. 


José Cassais

Flaubert - Madame Bovary

Madame Bovary era uma mulher que desejava muito realizar todos os seus sonhos. Ela poderia ter vivido uma existência sem grandes sobressaltos. Poderia ter sido mais uma mulher casada com um marido trabalhador, o qual lhe proporcionasse uma existência tranquila numa casa agradável e com alguns filhos para cuidar, e tempo para dedicar-se a suas leituras prediletas. Talvez os problemas de Bovary tenham começado exatamente aí, nos livros que lia. Tal como o Don Quixote, deixava-se influenciar em demasia pelo que encontrava nos livros, desejando transformar o seu conteúdo em realidade, vivenciá-lo ela mesma, sonhando sempre com o que poderia ser a sua vida ideal. O cavaleiro da triste figura não esperou que as oportunidades surgissem, o que talvez jamais acontecesse, mas tratou de ele mesmo forjar em sua vida as circunstâncias apropriadas com o fim de trazer à luz as quimeras que conhecia através de suas leituras. Mme, Bovary talvez, ao contrário do fidalgo, jamais tentasse viver uma vida semelhante à dos personagens de seus livros se a própria realidade não viesse cooperar com a sua imaginação exaltada. Provavelmente, ela permaneceria apenas no exagero da manipulação de suas circunstâncias exteriores, extravasando sua imaginação em gastos excessivos na decoração do lar. Mas as circunstâncias cooperaram com o desejo que ela tinha de vivenciar coisas diferentes, principalmente no que se refere a romance. Os homens certos, as festas exemplares apareceram em seu caminho nas circunstâncias apropriadas. E ela, então, se deixou levar pelas fantasias e desejos cada vez mais, envolvendo-se numa rede de traições e débitos que, por fim, a levaram ao suicídio, quando os amantes não corresponderam às expectativas que entretinha e as suas dívidas se tornaram impagáveis.

Não se pode dizer que Bovary tivesse um bom caráter. Seu marido não chegava a ser um Don Juan, e com certeza não satisfazia a todas as suas expectativas românticas, mas, como se diz, “dava para o gasto”. Deu-lhe uma filha, uma boa casa, uma situação estável. Todavia, no cerne da trama do livro está a questão filosófica da realização pessoal na área do amor romantizado. É a mesma questão levantada pela filósofa Ayn Rand em seu livro monumental “A Revolta de Atlas”, onde um dos personagens é justificado em cometer adultério com a personagem principal do livro pelo motivo de ela ser a própria realização da essência de todos os seus desejos sexuais. Por outro lado, a moça também se sente justificada em abandoná-lo quando aparece um homem que vai mais ao encontro do que ela esperava ter. De acordo com esta maneira de pensar devemos ir em frente, trocando de parceiro conforme vai aparecendo alguém que preencha melhor nossas expectativas românticas, e as pessoas abandonadas vão ficando pelo caminho — neste caso, o melhor para elas é aceitarem filosoficamente os motivos dos que não acreditam em fidelidade.

Ao contrário de Rand, o escritor Flaubert não procura desculpar sua personagem, todavia o peso das consequências de suas ações acaba desabando sobre ela integralmente — coisa que nem sempre acontece, necessariamente, na vida real. Contudo, quem vive de fantasias em algum momento deve acertar as contas com o mundo real. Não é por acaso que Flaubert é considerado o grande mestre do realismo literário.

 

José Cassais

Machado de Assis - Brás Cubas

Brás Cubas, o personagem-autor de um dos mais reconhecidos trabalhos do escritor Machado de Assis, é, na verdade, um proto-Macunaíma ilustrado, um herói sem nenhum traço de caráter que se possa considerar minimamente ético. Filosófico, sim; ético... jamais. O próprio romance homônimo de seu personagem é simplesmente a estória sem pejo de um adultério. Para alguém que tenha tido contato com os valores reais do cristianismo é desanimador constatar a cada parágrafo do livro a total falta de escrúpulos do casal espúrio, Brás e Virgília, quanto à situação que estão vivendo. Todas as suas preocupações maiores se resumem em como perpetuar o relacionamento imoral. Jamais transparece em suas considerações o menor resquício de consternação ou comiseração pelo traído Lobo Neves. Chega mesmo a espantar a hipocrisia da convivência com a vítima por parte do ilegítimo casal.

Brás Cubas, o personagem-autor de um dos mais reconhecidos trabalhos do escritor Machado de Assis, é, na verdade, um proto-Macunaíma ilustrado, um herói sem nenhum traço de caráter que se possa considerar minimamente ético. Filosófico, sim; ético, jamais. O próprio romance homônimo de seu personagem é simplesmente a estória sem pejo de um adultério. Para uma pessoa que tenha tido contato com os valores reais do cristianismo é desanimador constatar, a cada parágrafo do livro, a total falta de escrúpulos do casal espúrio, Brás e Virgília, quanto à situação que estão vivendo. Todas as suas preocupações maiores se resumem em como perpetuar o relacionamento imoral. Jamais transparece em suas considerações o menor resquício de consternação ou comiseração pelo traído Lobo Neves. Chega mesmo a espantar a hipocrisia da convivência com a vítima por parte do ilegítimo casal.

Em Machado de Assis não se encontra nada de uma moralidade verdadeiramente cristã, no máximo algumas influências remotas de um catolicismo residual. Isto se deve, talvez, principalmente ao fato de Machado não haver formado o seu caráter sob a influência de uma cultura permeada pelos valores éticos e morais do protestantismo de origem europeia. Não há em sua obra nem mesmo ecos desta cultura. Tal constatação é o que imediatamente surge como resposta e explicação para o comportamento dos personagens machadianos, quase sempre desprovidos de qualquer senso moral do ponto de vista de um cristianismo minimamente consistente. Sem o atrevimento de tentar negar ou diminuir a grandiosidade do estro de Machado de Assis, sem dúvida um dos maiores escritores de todos os tempos e lugares, temos de convir que o que lhe abunda de espirituosidade carece-lhe em igual medida de espiritualidade; ou melhor, para não sermos exigentes além do que é devido, daquele reflexo da espiritualidade cristã que tem iluminado o curso de nossa civilização: a ética e a moral emanadas das Sagradas Escrituras. 

Entretanto, a pergunta que se coloca é a seguinte: de onde Machado retirou os valores que moldaram a sua moralidade? Se não foi de uma base judaico-cristã de onde, então? Vê-se bem que o escritor demonstra possuir uma sólida bagagem cultural no que se refere à leitura dos clássicos da antiguidade. Mas não foi desta fonte que ele bebeu para a formação de sua ética. Os gregos e romanos tinham seus heróis que praticavam as vezes ações condenáveis do ponto de vista de um cristianismo verdadeiro, mas, ainda assim, sem o cinismo e a impassibilidade quase amoral dos personagens machadianos. Havia nos antigos uma consciência que expunha o erro de tais ações que necessariamente redundavam em tragédias, algumas vezes grandiosas, como a que sucedeu ao rapto de Helena. Havia também o elogio da verdadeira virtuosidade, praticamente ausente na obra de Machado. Quanto ao catolicismo, o que Machado de Assis nos apresenta é sempre uma caricatura de vida religiosa cheia de fatuidade, cujos reflexos inspiram mais zombaria do que qualquer outro sentimento. O verdadeiro cristianismo nunca aparece nem os seus valores. Tal fato já estava patente na obra de seu antepassado literário mais direto, Manuel Antônio de Almeida. No seu “Memórias de Um Sargento de Milícias” os personagens que surgem de dentro da igreja cristã são desenvolvidos sob um viés ainda mais obscuro e aparecem ainda mais desprezíveis.

A ausência de uma moralidade oriunda dos ensinamentos genuinamente cristãos nos nossos grandes escritores tem consequências desastrosas para a formação do caráter nacional. Pois é justamente aí, na leitura e no estudo dos clássicos de uma nação por seus indivíduos mais bem formados que se fundam e se disseminam os valores que vão formar o alicerce daquele caráter. É bem conhecida a influência dos valores judaico-cristãos na grande literatura de muitas nações. Escritores como Andrés Bello, venezeluano; Juan Ramón Jiménez, espanhol, prêmio Nobel de literatura de 1956 (“Todas las cosas arden / porque yo te he encontrado / Dios deseante y deseado”); José Maria de Heredia y Heredia, cubano; Ricardo Palma, peruano (“Si un texto me falta que pruebe mi acierto, lo pido a la Bíblia, lo pido al Talmud”); o grande Cervantes; Lope de Vega, também grande, também espanhol; isto para ficar somente com alguns exemplos tirados dos muitos escritores de língua castelhana que tiveram nas sagradas escrituras uma fonte inesgotável de inspiração e provimento cultural. E quanto aos de língua inglesa? Seria preciso estendermo-nos demasiadamente. Compare-se, porém, a atitude impiedosa e cínica de Brás e Virgília para com o marido enganado, com a atitude de outro par romântico em situação semelhante (mas não tão imoral), num célebre romance de língua alemã, de um não menos célebre autor: o Werther, de Goethe. Porém, o que nos deixa consternados é a triste constatação de que estes citados autores retiraram da Bíblia não somente um resíduo cultural, porém, o que é incomensuravelmente mais importante, dela extraíram o fundamento mesmo de suas éticas pessoais, ao contrário dos mais considerados escritores brasileiros.

Quanto a Machado, encontramos, entre tantos textos esclarecedores de sua filosofia de vida, as seguintes palavras: “Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu”. Verdadeiramente! A este ponto chegamos, já na metade do século dezenove. Sem os valores inculcados por um cristianismo realmente praticado, desconsiderando também aqueles outros oriundos da antiguidade clássica - os mais elevados a que pode almejar uma humanidade que ainda não teve a oportunidade de beber na fonte límpida dos textos sagrados, os homens que almejam viver de forma civilizada, não encontrando apoio em nada que possa assemelhar-se a um legítimo código de moralidade e ética para ampará-los na sua vivência social, podem contar apenas com a “amável formalidade”. Eis aqui a verdadeira gênese do caráter do povo brasileiro. Mas que horrível vazio se pressente na existência formal e egoísta das personagens machadianas! Somente nos caracteres secundários se vislumbra, às vezes, algum vestígio de justiça, porém, quanto a estes, são sempre apresentados de forma a serem menosprezados.

Todavia, parece impossível que a nossa intelectualidade estivesse, mesmo no século passado, órfã de bons ensinamentos, (se fosse o caso de por eles interessar-se). Tinham a Bíblia. Nela poderiam, se quisessem, obter o melhor auxílio para a formação de um caráter justo. Tinham as grandes obras da literatura clássica. Seu amor pela formalidade encobrindo uma existência desprovida de valores reais, só pode derivar de uma escolha conscientemente realizada. Eles apreciavam viver daquela maneira. E desprezavam a verdadeira instrução, como se pode constatar nestas palavras tiradas do mesmo parágrafo de Brás Cubas de onde se obteve a citação anterior: “...ao contrário de uma VELHA FÓRMULA ABSURDA*, não é a letra que mata; a letra dá vida, o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amável Formalidade...”

* "...porque a letra mata, mas o espírito vivifica". (2Co 3:6)


José Cassais

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Revolta de Atlas - Ayn Rand




Uma das maiores recompensas que se retira da leitura dos grandes romances é conhecer, de forma bem sucinta e esclarecedora, certos aspectos essenciais da cultura e psicologia de um determinado povo. Os bons autores sabem colher o que há de mais interessante e característico na existência da sociedade que escolhem para retratar e condensam este conhecimento na estória de seus personagens, nos acontecimentos em que se envolvem, na descrição de seu mundo. Além disso, alguns países parecem que tiveram a ventura de ter suas características mais básicas melhor apreendidas por autores estrangeiros do que pelos de seu próprio povo. Os Estados Unidos parece ser o caso mais marcante deste tipo. Quando se analisa os princípios básicos da psicologia da grande nação norte americana o primeiro autor que surge em nossa mente é Alexis de Tocqueville, um francês do século dezenove que escreveu um influente livro chamado "A Democracia na América." Ainda, de acordo com a Biblioteca do Congresso Americano, o livro de maior influência nos Estados Unidos é a Bíblia, a qual foi escrita, em sua maior parte, por autores judeus. De acordo com a mesma fonte, o segundo livro mais influente é "Atlas Shrugged" (A Revolta de Atlas, no Brasil) da filósofa Ayn Rand, uma cidadã da União Soviética.

 

A Revolta de Atlas compõe-se de três alentados volumes. No primeiro, vários personagens se destacam, inclusive um que aparece apenas como um mote (Quem é John Galt?) Mas, sem dúvida, o principal deles é do sexo feminino e chama-se Dagny Taggart. Ela é a herdeira da Taggart Transcontinental, a maior empresa ferroviária dos Estados Unidos, na época. Dagny é uma defensora ferrenha do capitalismo mais puro, entendido como um sistema onde os homens capazes, dedicados e superdotados são deixados livres para produzir e trocar os seus produtos através do dinheiro. Tal ação, conforme acredita a autora do livro, gera o maior nível de prosperidade para todas as pessoas na sociedade em que vivem. O maior obstáculo a fim de que isto aconteça é o Estado, quando se envolve nas questões econômicas tentando controlar a produção e distribuir o que é produzido pelos indivíduos mais capazes. Tal Estado, naturalmente, é controlado por uma classe de burocratas e pensadores aparentemente bem-intencionados, idealistas que pensam em ajudar a humanidade administrando a produção e distribuindo uma parte da riqueza produzida pelos super-capitalistas, todavia sem deixar de atender aos seus próprios interesses. Os burocratas, conforme pensa a autora do livro, são aliados dos produtores menos capazes e invejosos que os manipulam com o fim de se apossarem de uma parte substancial dos resultados obtidos pelos homens verdadeiramente talentosos e empreendedores, aqueles que criam novas tecnologias e também enriquecem graças a sua genialidade e empenho em produzi-las e vendê-las. As pessoas comuns são, via de regra, apresentadas como apoiadoras dos capitalistas aproveitadores e dos burocratas demagogos, pois estes lhes satisfazem o desejo de obterem coisas que não fizeram por merecer, adjudicando-lhes uma parte da produção além do que os capitalistas concordariam em pagar-lhes num sistema de livre competição. Não há como não concordar veementemente com Ayn Rand quando ela descreve a classe dos aproveitadores, capitalistas invejosos e incapazes, assim como os demagogos, e o sistema que favorece o seu domínio sobre a sociedade. Tal descrição torna-se mais contundente à medida que o livro se encaminha para os capítulos finais.

 

Um dos pontos fracos do livro, no primeiro volume e até a metade do segundo, são os longos diálogos detalhistas e um tanto formais, repletos de frases sugestivas que terminam por reticências. Quão grande é a distância existente entre a monotonia mecânica destas conversas e a brilhante revelação de um caráter na simples palavra dita pelo farmacêutico Homais, no romance Mme. Bovary, de Flaubert, quando, ao oferecer o açúcar para o ilustre visitante, resolve mostrar-se profundo e erudito: "Saccharum?"! A partir da metade do segundo volume a narrativa e os diálogos adquirem uma espontaneidade e profundidade maiores. Cenas como a do desastre do trem no túnel chegam a atingir um alto nível de suspense, devido a manipulação brilhante das expectativas. Havendo lembrado de Mme. Bovary, não se pode deixar de notar a semelhança essencial de caráter entre estas duas personagens femininas. A francesa do século dezenove não teve a sorte de nascer, como a americana de um século posterior, rica e poderosa; logo, não tem que lutar com os mesmos problemas. Ambas, porém, só estão interessadas em fazer o que desejam, e não querem sacrificar os seus desejos por nada nem por ninguém. Desprezam as convenções. Desprezam aqueles que lhes dizem que estão erradas. O verdadeiro fim do ser humano, assim elas o entendem, é buscar a realização de seus desejos. Têm seu próprio código de valores, difícil de entender porquanto parece não levar em consideração o interesse dos outros. Assim como Hank Rearden, outro personagem no romance de Rand, não liga para o que pensa ou sente sua esposa (não se consegue apreender claramente porque ele a despreza), Ema Bovary também não se preocupa com os sentimentos de seu marido. Entretanto, Flaubert nos mostra a verdadeira condição de sua personagem e o fim lógico de sua vida, ao passo que Rand envolve a sua numa aura de inexpugnabilidade. Os caracteres principais de "A Revolta de Atlas", com seu código muito pessoal de valores, não são humanos normais: estão sempre certos! Parece que este é um dos principais defeitos da obra, senão o principal. Que tipo de leitor lê com concordância irrestrita, do início ao fim, um livro que se pretende realista e no qual os personagens principais nunca deixam de estarem com a razão? Jamais lhes cabe qualquer repreensão, a não ser as que parecem ser dirigidas a um excesso de bom caráter. Todas as pessoas que se lhes opõem acabam revelando um comportamento que é descrito como extremamente mesquinho e repreensível. Esta característica da obra retira-lhe completamente a possibilidade de tornar-se uma obra clássica no sentido tradicional do termo. Que autor consagrado pelo tempo teria cometido tal deslize? Até mesmo as maiores personagens bíblicas, sem contar o próprio Jesus Cristo, eram humanos cheios de falhas, contra as quais tinham de lutar constantemente. Na verdade, esta característica é uma das chaves para o entendimento do livro. Seu enredo trata, entre outras coisas, do suposto lugar dos heróis na sociedade: Hank Rearden, Dagny Taggart, Francisco D'Anconia, John Galt e os que os apoiam, são pessoas muito além de excepcionais. Na Bíblia, somente o próprio Cristo lhes era comparável em termos de irrepreensibilidade. Nunca existiram muitos seres humanos como eles: São cientistas, inventores de altíssimo nível, filósofos, empreendedores, inovadores, criadores, mártires, todas estas qualidades existindo em cada um deles individualmente; são todos da linhagem de Prometeu, os verdadeiros salvadores e condutores da humanidade, com seu fogo tecnológico. O livro trata apenas deles e de seus direitos. O resto da humanidade é composto de pessoas comuns que dependem deles para trabalhar e viver, e daquele que desejam ter os mesmos privilégios que eles têm sem merecê-los, os parasitas: pessoas comuns que reivindicam direitos naturais, políticos que as apoiam, burocratas ambiciosos e acadêmicos que professam uma filosofia relativista.

 

Ayn Rand também deixa entrever, no livro, uma curiosa teoria do amor e do sexo. Segundo ela, os homens excepcionais só podem satisfazer-se plenamente com uma mulher também excepcional, que colocaria em relevo suas próprias qualidades. A suprema conquista de um grande empreendedor! Neste caso, o papel que cabe à mulher é o da heroína que se deixa usar. Pena que, no livro, o papel de heroína só cabe a uma mulher, a própria Dagny Taggart. Deste modo, alguns heróis devem permanecer solteiros. Também não são poucas as referências aos instintos assassinos dos heróis do livro, dirigidos, na intenção ao menos, contra aqueles que desafiam sua visão existencial, sua necessidade de satisfazerem os próprios desejos antes de qualquer outra consideração. Em vários momentos o instinto assassino dos personagens principais aflora contra aqueles que eles pensam que desejam obter qualquer benefício do fruto de seus esforços. Um trem inteiro cheio de passageiros é sacrificado, mas as pessoas que tem de executar a ordem são justificadas de certa forma, pois pensam como os heróis do livro, são empreendedores desiludidos com o rumo que a humanidade está tomando, contrário a liberdade irrestrita do instinto empresarial, humanidade que pensa existirem direitos naturais além do direito de trabalhar e negociar, coisa com a qual a autora não concorda absolutamente.

 

Ayn Rand, na verdade, defende uma forma de totalitarismo que sempre existiu: a lei do mais capaz, que lhe permite apossar-se de tudo o que puder conseguir com sua capacidade, até mesmo do mundo inteiro, todavia, com uma ressalva: tudo deve ser feito com honestidade e dentro da lei. Ela não questiona suas premissas, a principal das quais nos diz que o livre empreendedorismo irrestrito, com a exclusão de qualquer forma de piedade e ajuda humanitária, só acumula benefícios para a humanidade. O trem e as pessoas sacrificadas, todas elas contaminadas pelo pensamento de que tem direito natural a uma fatia do bolo que os empreendedores cozeram, representam a sociedade que a autora não aceita e que pode ser exterminada sem causar perturbações na superfície da consciência. Em outra cena um homem é apresentado de forma bem positiva como vingador da classe dos produtores ao dar um soco na boca de uma garotinha e quebrar-lhe todos os dentes. A culpa da menina: desejou que o Estado lhe pagasse um aparelho para os dentes, e era feia e má. No final da história a própria Dagni torna-se uma assassina ao matar um funcionário que tenta impedi-la de entrar em uma instalação governamental. O livro é todo ele um libelo contra a piedade. Numa tal sociedade, a qual estivesse funcionando como a autora imagina que deveria ser, ficamos nos perguntando o que aconteceria com as crianças e os velhos, os doentes e os fracos e os azarados de todos as espécies. Em nossa mente surgem perguntas do tipo: Em que idade as crianças deveriam ser deserdadas pelos pais? Numa sociedade onde a palavra “dar” representa um tabu horroroso, e onde toda piedade é execrada, que direito tiveram D’anconia e Dagny de herdarem as empresas de seus progenitores? Até que idade seus pais os deveriam sustentaram? Teriam eles o direito, a partir do momento em que estavam aptos para começaram a trabalhar, de pedir alguma ajuda a eles, se houvesse necessidade? Ou deveriam receber um sonoro “Não!” em resposta?

 

Mas como funciona, na prática, o sistema econômico que Ayn Rand advoga? Imaginemos que no vale de Galt, já mais densamente povoado por pessoas não tão excepcionais quanto seus habitantes originais, um homem empreendedor e capaz estabelece uma fábrica de processamento de abacaxis, a fim de fabricar conservas desta fruta. Uma vez que existe certa procura premente por emprego, já que ali ninguém dá nada para ninguém, as pessoas aceitam trabalhar na fábrica pelo salário que lhes é oferecido, sendo este, naturalmente, o mais baixo que elas podem aceitar (abaixo do qual não trabalhariam de maneira nenhuma), de acordo com as regras deste tipo de capitalismo. Obviamente, não condiz com o tipo de sistema econômico imaginado por Rand pagar um centavo acima do mínimo que as pessoas se disporiam a aceitar, pois esta seria uma atitude piedosa e desnecessária, e a autora do livro abomina a piedade. Tudo deve funcionar, de acordo com ela, segundo as regras estritas do “capitalismo laissez-faire”. Para a autora do livro este seria o cenário justo por excelência, com as pessoas ganhando o salário mais reduzido possível e os lucros do empreendedor elevados ao máximo. Ainda assim, os trabalhadores da fábrica de conservas deveriam ser agradecidos ao homem que lhes dera a oportunidade de terem trabalho e salário. Mas eis que surge no cenário um outro capitalista que deseja entrar no negócio de produção de conserva de abacaxi. Ele vê que não existem trabalhadores disponíveis, pois não há desemprego no vale. Como a margem de lucro é muito alta no negócio, devido aos salários mínimos que são pagos, ele oferece cinquenta por cento a mais para os que quiserem abandonar o emprego atual e virem trabalhar na sua fábrica. O primeiro capitalista, percebendo que vai perder todos os seus empregados, aumenta-lhes os salários em cinquenta e cinco por cento. O outro segue-lhe o exemplo. Por fim, todos estão empregados com um salário cinquenta e cinco por cento maior. Como a produção de abacaxi em conserva aumentou, e também devido à concorrência entre os produtores, os consumidores acabam obtendo este produto por um preço menor. Para Rand, se jamais surgisse um segundo capitalista empreendedor para entrar no ramo de negócios do primeiro, a situação que se perpetuaria com os trabalhadores recebendo um salário irrisório e o dono da fábrica auferindo lucros muito altos seria perfeitamente aceitável. Uma vez que a autora trabalha somente com axiomas do que deve ser o capitalismo puro, os trabalhadores deveriam aguardar pacientemente, recebendo salários bem menores do que aqueles que o primeiro empregador poderia pagar, até que surgisse um novo empreendedor para entrar no mesmo ramo de negócio e elevar-lhes os salários. Se os trabalhadores de todas as fábricas do vale resolvessem se unir e fizessem uma poupança, e usassem este recurso para manterem numa greve prolongada os trabalhadores da fábrica que estivesse pagando os menores salários até que eles conseguissem um aumento razoável (o máximo que o empregador aceitasse pagar), a autora aceitaria tal resultado como justo? Certamente que não, pois, para Rand, todos os empreendedores são homens justos e as regras do capitalismo irrestrito só devem funcionar a seu favor. No caso acima descrito os trabalhadores estariam, na verdade, agindo em causa própria da mesma forma como agem os capitalistas quando são louvados por absterem-se do consumo imediato de uma parte de seus recursos para aplicarem-no em seus negócios. Esta é uma das características que distingue os capitalistas e os torna dignos de louvor na mitologia da literatura a seu respeito: a frugalidade. Não podem os trabalhadores serem apreciados pelo mesmo motivo? Não podem eles investir o fruto de sua frugalidade em si mesmos? Não deveriam ser também louvados por usarem a sua inteligência tentando encontrar meios honestos de aumentar a própria renda?

 

O maior erro do marxismo é manter de forma axiomática que os capitalistas são pessoas ruins e os trabalhadores são boas pessoas; da mesma forma e ao contrário, Rand parece supor que os primeiros são bons e os últimos são, geralmente, maus. Como se houvesse um fado a determinar que as pessoas, por serem boas ou más, iriam pertencer a esta ou àquela classe. Tais doutrinas, as quais atribuem as supostas qualidades de uma determinada classe social intrinsecamente às próprias pessoas que nela estão incluídas, são as mais perniciosas que sempre existiram, estimulando o ódio entre os seres humanos. Um proletário que se torna capitalista passa a ser uma pessoa má? De um outro ponto de vista, o mesmo acontece com um empreendedor que empobrece? Quem acredita nisso está apenas justificando o próprio ódio contra a humanidade. Não é isto o que diz a constituição dos Estados Unidos da América ao afirmar que todos os homens nascem iguais, bons e maus na mesma medida, independentemente da classe à qual pertencem.

 

Trata-se isto, na verdade, de um conto de fadas, de uma utopia sonhadora, uma verdadeira paródia do cristianismo que a autora tanto menospreza e contra o qual tanto se ressente. O capítulo onde é narrada a queda do avião no vale encantado onde John Galt mantém a sua comunidade de super-cérebros assemelha-se, estranhamente, a uma experiência de vida após a morte e aquilo que os que acreditam na vida após a morte pensam ser o outro mundo: um paraíso para aqueles que foram boas pessoas durante sua existência, com todos os problemas solucionados, com tudo funcionando maravilhosamente e as pessoas e a natureza, perfeitas, vivendo em comunhão abençoada. A entrada neste novo mundo é como que uma morte e renascimento simbólicos, onde o herói do livro aparece para a heroína como uma espécie de semideus, sendo descrito quase como uma consciência pura. A narrativa da volta de Dagny ao mundo normal reproduz com perfeição a sensação daquilo que os cristãos chamam de viver pela fé. A heroína está com os olhos vendados sendo conduzida num avião por Galt, sem poder vê-lo e nem mesmo ouvi-lo. Deve permanecer tranquila, confiando que está nas mãos de alguém que vai levá-la com segurança ao seu destino. É assim mesmo que os cristãos devem viver com relação a Deus e ao seu filho, Jesus Cristo. A única frase que o piloto diz para Dagny tranquiliza-a a respeito de sua onipresença: “Sempre estarei aqui”. Também a onisciência divina aparece entre os atributos de John Galt quando Dagny, sozinha em seu apartamento na cidade de Nova York, manifesta certeza absoluta de estar sendo por ele observada. Ela começa a divagar sobre o tipo de invento que ele deve estar utilizando para poder enxergá-la. Quase ao final do livro, Galt passa por uma experiência de tortura na qual chega próximo da morte, ressurgindo dela como um verdadeiro Anticristo que, assim como o verdadeiro Cristo, sacrifica sua vida para salvar a humanidade. Neste ponto, fica claro o que o livro pretende: colocar o homem, com sua capacidade inventiva, no lugar do próprio Deus, apropriando-se de todas as suas qualidades e atributos através do desenvolvimento da técnica e do domínio da matéria. Alguns homens, como Galt, serão deuses; outros, como Dagny, adoradores. Deus mesmo está completamente ausente do livro, apesar de haver algumas pistas a seu respeito, como no ponto em que a autora se refere com desprezo àquele que manda dar a César o que é de César — coisa com a qual ela não concorda, absolutamente. Obviamente, uma vez que o que é de César é uma parte do dinheiro ganho pelos heróis do livro o qual é entregue para o governo na forma de impostos (taxação que vai de encontro a filosofia do livro), e a autora também adora o dinheiro, como se vê no episódio do vale de Galt, onde o obelisco do cifrão dourado domina a paisagem, como uma representação de Mamom. Dagny não enxerga que se a figura de César está inscrita no denário romano a figura de Deus está, igualmente, inscrita em nós mesmos, pois fomos criados a imagem e semelhança de Deus. “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

 

Ainda, o mundo onde a estória se passa é completamente dominado por figuras masculinas, como se vê no jantar que é oferecido a Dagny no vale de Galt. O capítulo não deveria chamar-se “Atlântida”, e sim “Olimpo”. A autora só tem em mente os super-empreendedores, uma classe de seres que reúnem em si mesmos todas as qualidades requeridas de um ser humano a fim de tornar-se extremamente bem-sucedido. São, eles, homens capazes de inventarem do nada as máquinas e os materiais mais maravilhosos, aptos a solucionarem problemas complexos com apenas alguns rabiscos feitos em qualquer pedaço de papel. Além disso, possuem ou conseguem se apropriar dos recursos para colocarem suas ideias em prática eles mesmos — sendo também dotados de um senso empresarial perfeito.  Apesar disso, Ayn Rand tem, na verdade, uma alma marxista. O homem que ela louva é o mesmo que é enaltecido pela literatura comunista: desprovido de crença em um ser que seja superior a si mesmo, criador ele mesmo de seu destino, dominador e transformador da matéria para atender a todas as suas necessidades e cheio de esperanças num futuro onde será senhor absoluto do mundo material através do avanço da ciência. Onde estão os empresários que professam sinceramente a ética do cristianismo e do judaísmo, ou que foram de alguma maneira influenciados por elas, os quais construíram a grandeza da nação norte americana, exemplo máximo do tipo de sociedade que a autora procura enaltecer? No livro, quando os grandes empresários falam de si mesmos sua voz soa incoerente cada vez que se descrevem como materialistas e ateus consumados. Nada mais fantasioso! Ayn Rand ignora ou subverte completamente a realidade descrita no livro de Max Weber, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, e a realidade da formação dos Estados Unidos da América. Alguns dos “Founding Fathers” poderiam ser outras coisas que não cristãos - maçons ou rosacruzes, por exemplo - mas não eram, na sua grande maioria, pessoas irreligiosas ou alheias e contrárias a ética do cristianismo, a qual a autora procura minar completamente. Estranho é que tantos americanos ainda acreditem em suas ideias e sejam tão influenciados por elas. Na verdade, para os inimigos do cristianismo é indiferente que a sociedade seja capitalista ou comunista, assim como também o é para os verdadeiros cristãos. É bem provável que o capitalismo seja intrinsecamente superior ao comunismo como sistema de produção e distribuição, todavia o que importa, verdadeiramente, é se a sociedade em questão é justa ou injusta. Os inimigos do cristianismo almejam implantar uma sociedade completamente sem Deus, baseada no ateísmo e no culto ao homem e suas possibilidades. Para este fim, tanto faz inculcar nas mentes dos homens o desejo por uma sociedade comunista e descrente ou por uma outra capitalista e descrente. O materialismo é a crença maior de qualquer um dos dois tipos. O segundo é o escolhido por Ayn Rand como sendo o que ela gostaria de ver implantado.

 

Um hino de louvor às máquinas (e aos seus criadores) perpassa as páginas do livro, porém em momento algum a autora parece se preocupar em encontrar, para dar-lhe os louvores merecidos, o autor da máquina mais maravilhosa de todas, que ela não cansa de contemplar na figura de seus heróis: o corpo humano. D’Anconia, Rearden e Galt foram abençoados com corpos físicos tão perfeitos como as máquinas que inventam ou controlam. E todos os três se apaixonam e amam profundamente a heroína do livro. Na verdade, como a própria Ayn Rand disse uma vez, trata-se apenas de uma estória de amor. E das mais fantasiosas. A prova mais contundente que o livro é uma fábula é a reprodução de um paradigma mitológico não plenamente identificado que se reproduz na literatura de todas as épocas: os trabalhadores comuns que nunca aparecem no livro, os milhões de seres humanos que existem apenas para fazerem funcionar as fábricas e minas dos D’anconia e Rearden, para manejarem suas máquinas e consumirem seus produtos. Eles estão representados na literatura mitológica de todas as épocas pelos anões de Papai Noel, trabalhando alegremente em sua fábrica de brinquedos (deve ser uma fábrica enorme, a fim de atender a toda a humanidade); pelos anões da Branca de Neve, indo felizes para o trabalho, alimentando-a e provavelmente também ao seu príncipe, mais tarde; pelos anões de Willie Wonka trabalhando e cantando em sua fábrica de chocolate... Esta é a parábola que se repete: uma infinidade de trabalhadores anões esforçando-se para realizar os sonhos de seus patrões de estatura normal (ou um pouco mais do que o normal, no caso de Papai Noel).

 

Ayn Rand revela algumas das premissas principais de sua filosofia no episódio em que Cherryl, a esposa de James Taggart, vai procurar a cunhada em seu apartamento. Ela começara a ver que seu marido não é tão perfeito como imaginava e passa a desprezá-lo completamente, no que é incentivada por Dagny com o mesmo desprezo irracional e absoluto (dos que se julgam superiores moralmente, acima do bem e do mal) que Hank Rearden manifesta por sua esposa. Dagny expõe seus princípios em algumas poucas frases lapidares, afirmando, por exemplo, que aqueles que sentem comiseração pela culpa não sentem nenhuma pela inocência. Defende-se da acusação de insensibilidade afirmando que sempre que alguém é apodado de insensível tal afirmação prova que este alguém é uma pessoa justa. Os justos não sentem piedade. Esta é a maneira típica de pensar dos que se julgam quase perfeitos, aptos a condenar seus semelhantes a algum tipo de inferno administrado por eles mesmos. Quem errar estará condenado, sem comiseração. Apenas os inocentes, os que nunca são culpados porque nunca erram (como Dagny e seus amigos) merecem piedade, por serem vítimas. A tendenciosidade da autora é claramente revelada no episódio do adultério de James Taggart com a esposa de Rearden, que é apresentado de forma tão asquerosa quanto o deste último com a irmã do primeiro aparece envolto numa aura de sublimidade. Segundo a autora, certos adultérios estão, de antemão, justificados. Mais adiante, a heroína revela a única norma que obedece em sua vida, a de não colocar nada acima do veredicto de sua própria mente. Isto é o mesmo que declarar, implicitamente, a perfeição absoluta de uma mente humana particular! Porém, como confiaríamos absolutamente em um órgão que não fosse perfeito para os fins de conhecimento da realidade? Em nenhum momento do livro Dagny se contradiz mais completamente. Uma vez que ela é uma ateia convicta deve aceitar a teoria da evolução de Darwin e, neste caso, como saber que a evolução da sua mente humana já está completa para confiar nela tão exclusivamente? Contudo ela acredita que, sendo um ser que faz parte de uma longa cadeia evolutiva, já atingiu a perfeição. Também no longo discurso de Galt à nação a mente humana individual é apresentada como o valor supremo que se deve cultuar. Ele tenta convencer as pessoas que não devem aceitar o veredicto de nenhuma outra mente além da sua própria. Não se consegue apreender o significado deste conselho. Teria a mente humana atingido um estágio de racionalidade tão extrema, na concepção da autora, que não haveria mais necessidade da cooperação intelectual na busca da verdade? Galt também afirma que o homem deve moldar sua mente a própria imagem e semelhança do homem, seu ideal moral. Ayn Rand, que começou sua trajetória intelectual influenciada por Nietzche, influência que ela mais tarde renegou, na verdade nunca se libertou das ideias daquele filósofo, e o sistema que ela nos apresenta como o mais perfeito é uma espécie de capitalismo com alma de Anticristo.

 

O maior engano filosófico cometido pela autora diz respeito à natureza do mal e da justiça. Segundo o que ela acredita os maus, que também são incapazes, tentam enganar os bons fazendo-os acreditar que eles é que são maus e desprovidos de piedade por suas fraquezas. A falácia da autora principia com suas premissas, fazendo-nos crer que todas as pessoas verdadeiramente criativas e capazes são também justas, e os desprovidos de criatividade (ou que apenas simulam esta qualidade) e incapazes são também injustos. Não existe um motivo ontológico para ser assim. Muitas vezes, na história da humanidade, a idoneidade andou de mãos dadas com a injustiça, sendo que pessoas simples também podem possuir um senso inato de justiça. A verdadeira natureza do mal está no que uma pessoa acredita com respeito a si própria, atribuindo-se um senso indevido de justiça. Os maus são cheios de justiça própria. Por mais que pratiquem maldades contra os seus semelhantes, movidos pela inveja e cobiça, sempre se auto justificam de alguma maneira. Deleitam-se no auto-engano, parecendo acreditar que por serem tão eficientes em convencerem a si próprios de sua retidão devem estar agindo corretamente até mesmo quando praticam coisas erradas contra os outros. Não se importam com a opinião e o sofrimento alheios, desde que consigam alcançar os seus objetivos.

 

Ayn Rand esforça-se por demonstrar que se as pessoas viverem de acordo com a sua filosofia tudo deverá funcionar perfeitamente em suas vidas, no entanto torna-se óbvio que tal só acontece para os personagens principais, e toda a construção da trama se destina a realizar os sonhos mais dourados de Dagny Taggart. Em certo ponto, a autora chega a um impasse: é quando a personagem principal deve se decidir por qual dos heróis irá se apaixonar. Ela escolhe o mais importante de todos: o próprio John Galt. Francisco D’Anconia, que a considera a mulher de sua vida, apesar de demonstrar que pretende ficar com ela, tem de permanecer solteiro. Estranhamente, apesar de todos os esforços da autora em conferir um tom de grandiosidade ao arranjo final dos acontecimentos, fica claro que D’anconia deve permanecer com um sentimento, o da resignação, que é totalmente contrário àquilo que Ayn Rand vem apregoando por todo o livro. Para ser coerente com uma filosofia de vida onde o egoísmo é a característica mais louvada e desejada, ele não deveria abrir mão daquilo que realmente almejava, e que considerava como sendo a coisa mais importante de sua existência, em favor de Galt. O mais certo, neste caso, seria que praticasse em sua vida pessoal os mesmos princípios de competição pura os quais norteiam o tipo de capitalismo apregoado por Rand em sua obra. Deveria, sim, desejar que Dagny mudasse de ideia e passasse a desejá-lo ao invés de desejar Galt; deveria esforçar-se para ser mais merecedor do amor da heroína do que este, e, caso conseguisse realizar seu intento, menosprezar os sentimentos feridos de seu rival tanto quanto este menosprezou os seus. Ou, se não fosse bem-sucedido, pelo menos deveria admitir sua frustração — a qual não precisaria durar para sempre. É assim que as coisas acontecem na vida real. Em poucos momentos a atitude dos personagens principais se mostra mais dissonante das premissas do livro do que neste episódio da renúncia de D’Anconia, a não ser, talvez, no episódio semelhante em que Hank Rearden também deve renunciar ao amor e razão de sua vida. A atitude resignada deste último parece ainda mais patética, face ao tipo de filosofia de vida que o livro apregoa. O leitor atento fica a conjeturar qual deveria ser a decisão de John Galt, para quem Dagny era a realização mais almejada, se ela chegasse ao vale casada com D’Anconia ou Rearden. Tornar-se-ia ele o herói da exaltação do eu vivendo frustrado para sempre após ter realizado tudo para os outros? Acontece que no livro de Rand a competição baseada na vontade pessoal, no egoísmo abertamente admitido, no louvor dos mais competentes — ainda que realizada de forma honesta — menospreza o fato de que em um tal sistema o equilíbrio se dá pela consciência de que existem pessoas que ficam para trás, ao menos temporariamente, e nem sempre por serem os mais incapazes. Pois uma vez que existe competição é porque os recursos são escassos, e devem distribuir-se de alguma forma entre os que deles necessitam. Porém, desde que o sistema escolhido para esta distribuição seja um no qual não haja limites estabelecidos para a quantidade de recursos que cada um poderá amealhar para si, alguns indivíduos ficarão, por muito ou pouco tempo, sem o mínimo necessário para sobreviverem. Sempre existirão aqueles que irão precisar de ajuda.

 

Acontece que no livro a autora desenvolve a caricatura de um sistema capitalista viciado, onde o estado se intromete cada vez mais na vida das pessoas tentando regular a produção e a distribuição, justificando-se com argumentos falaciosos que enaltecem a igualdade de oportunidades e a piedade com os fracos e os deserdados pelo sistema. Tal descrição não leva em conta as forças que atuam em sentido oposto num tal sistema, forças que não são desprovidas de poder, estando em primeiro lugar dentre elas os próprios capitalistas. A verdade é que não existem muitos deles que sejam tão puros livres empreendedores quanto os heróis do livro. É difícil encontrar, na história do capitalismo, exemplos concretos de seres tão virtuosos. A maioria absoluta dos empreendedores entende a verdadeira natureza do sistema capitalista, sua incapacidade de proporcionar estabilidade aos que dele participam, devido a ser um sistema de livre competição; sabe que os seus competidores estão prontos a buscarem vantagens em alianças com os poderosos de plantão e está inteiramente disposta a agir da mesma forma. Uma caricatura é um exagero de certos traços característicos de um rosto ou de uma personalidade, com a concomitante minimização de outros. É este o retrato do capitalista virtuoso que Ayn Rand apresenta em sua obra. Exagera as capacidades científicas e de empreendimento, como se elas não existissem, na maioria das vezes separadas em indivíduos diferentes, e minimiza o pragmatismo dos empresários. Feita a caricatura, é fácil para a autora investir contra aquilo que ela mais odeia, ou seja, qualquer coisa que tenha como objetivo a igualdade de oportunidades e a piedade para com os necessitados do sistema, valores que ela identifica com o cristianismo.

 

Uma das grandes falácias do argumento que perpassa a obra está em colocar no mesmo barco com os capitalistas incapazes e invejosos, burocratas e pseudo intelectuais, a grande massa de pessoas comuns, com raras e honrosas (do ponto de vista da autora) exceções. O que faz justiça à realidade é admitir que sob os dois sistemas, capitalismo puro ou estatal (este último na sua forma extrema sendo o comunismo), o povo é explorado a fim de servir aos interesses de algumas classes privilegiadas. Os burocratas, os demagogos e os ricos conseguem alcançar os seus objetivos através do dinheiro ou da persuasão e educação superior. Mas ao povo comum só é deixada a alternativa do voto, nas sociedades democráticas e capitalistas. Como, porém, são os ricos e os bem-educados que conquistam a oportunidade de disputarem os cargos na política, as pessoas desprovidas de riqueza e diplomas ficam sem representação adequada, tornando-se facilmente massa de manobra para as outras classes. Resta aos trabalhadores simples e explorados a possibilidade de conquistarem melhores condições através da sua união livre em sindicatos, com o fim de forçarem a classe patronal, através de greves e persuasão, a lhes concederem aumentos salariais e melhores condições de trabalho. A autora, porém, não concorda com esta possibilidade. Para ela, somente a mão invisível do capitalismo é que deve distribuir o resultado da produção no mundo. Entretanto, o livre capitalismo não é um sistema perfeito. Sê-lo-á somente no dia em que o excedente de produção for tão grande que haja o suficiente para que todas as pessoas na Terra tenham abundância de tudo o que necessitam, inclusive tempo para aproveitarem a vida. Porém, quando tal dia chegar, talvez os seguidores das ideias de Ayn Rand advoguem que todo excedente deverá ser destruído, e que nada deverá ser entregue a não ser por um preço justo, mesmo que os necessitados que não podem fazer nada não tenham com que pagar.

 

José Cassais