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sábado, 4 de maio de 2013

Machado de Assis - Brás Cubas


Brás Cubas, o personagem-autor de um dos mais reconhecidos trabalhos do escritor Machado de Assis, é, na verdade, um proto-Macunaíma ilustrado, um herói sem nenhum traço de caráter que se possa considerar minimamente ético. Filosófico, sim; ético... jamais. O próprio romance homônimo de seu personagem é simplesmente a estória sem pejo de um adultério. Para alguém que tenha tido contato com os valores reais do cristianismo é desanimador constatar a cada parágrafo do livro a total falta de escrúpulos do casal espúrio, Brás e Virgília, quanto à situação que estão vivendo. Todas as suas preocupações maiores se resumem em como perpetuar o relacionamento imoral. Jamais transparece em suas considerações o menor resquício de consternação ou comiseração pelo traído Lobo Neves. Chega mesmo a espantar a hipocrisia da convivência com a vítima por parte do ilegítimo casal.

Em Machado de Assis não se encontra nada de uma moralidade verdadeiramente cristã, no máximo algumas influências remotas de um catolicismo residual. Isto se deve, talvez, principalmente ao fato de Machado não haver formado o seu caráter sob a influência de uma cultura permeada pelos valores éticos e morais do protestantismo de origem européia. Não há em sua obra nem mesmo ecos desta cultura. Tal constatação é o que imediatamente surge como resposta e explicação para o comportamento dos personagens machadianos, quase sempre desprovidos de qualquer senso moral do ponto de vista de um cristianismo minimamente consistente. Sem o atrevimento de tentar negar ou diminuir a grandiosidade do estro de Machado de Assis, sem dúvida um dos maiores escritores de todos os tempos e lugares, temos de convir que o que lhe abunda de espirituosidade carece-lhe em igual medida de espiritualidade; ou melhor, para não sermos exigentes além do que é devido, daquele reflexo da espiritualidade cristã que tem iluminado o curso de nossa civilização: a ética e a moral emanadas das Sagradas Escrituras.

Porém, a pergunta que se coloca é a seguinte: de onde Machado retirou os valores que moldaram a sua moralidade? Se não foi de uma base judaico-cristã, de onde, então? Vê-se bem que o escritor demonstra possuir uma sólida bagagem cultural no que se refere à leitura dos clássicos da antiguidade. Mas não foi desta fonte que ele bebeu para a formação de sua ética. Os gregos e romanos tinham seus heróis que praticavam as vezes ações condenáveis do ponto de vista de um cristianismo verdadeiro, mas, ainda assim, sem o cinismo e a impassibilidade quase amoral dos personagens machadianos. Havia nos antigos uma consciência que expunha o erro de tais ações que necessariamente redundavam em tragédias, algumas vezes grandiosas, como a que sucedeu ao rapto de Helena. Havia também o elogio da verdadeira virtuosidade, praticamente ausente na obra de Machado. Quanto ao catolicismo, o que Machado de Assis nos apresenta é sempre uma caricatura de vida religiosa cheia de fatuidade, cujos reflexos inspiram mais zombaria do que qualquer outro sentimento. O verdadeiro cristianismo nunca aparece nem os seus valores. Tal fato já estava patente na obra de seu antepassado literário mais direto, Manuel Antônio de Almeida. No seu “Memórias de Um Sargento de Milícias” os personagens que surgem de dentro do catolicismo são desenvolvidos sob um viés ainda mais obscuro e aparecem ainda mais desprezíveis.

A ausência de uma moralidade oriunda dos ensinamentos genuinamente cristãos nos nossos grandes escritores tem conseqüências desastrosas para a formação do caráter nacional. Pois é justamente aí, na leitura e no estudo dos clássicos de uma nação por seus indivíduos mais bem formados que se fundam e se disseminam os valores que vão formar o alicerce daquele caráter. É bem conhecida a influência dos valores judaico-cristãos na grande literatura de muitas nações. Escritores como Andrés Bello, venezeluano; Juan Ramón Jiménez, espanhol, prêmio Nobel de literatura de 1956 (“Todas las cosas arden / porque yo te he encontrado / Dios deseante y deseado”); José Maria de Heredia y Heredia, cubano; Ricardo Palma, peruano (“Si un texto me falta que pruebe mi acierto, lo pido a la Bíblia, lo pido al Talmud”); o grande Cervantes; Lope de Vega, também grande, também espanhol; isto para ficar somente com alguns exemplos tirados dos muitos escritores de língua castelhana que tiveram nas Sagradas Escrituras uma fonte inesgotável de inspiração e provimento cultural. E quanto aos de língua inglesa? Seria preciso estendermo-nos demasiadamente. Compare-se, porém, a atitude impiedosa e cínica de Brás e Virgília para com o marido enganado, com a atitude de um outro par romântico em situação semelhante (mas não tão imoral), num célebre romance de língua alemã, de um não menos célebre autor: o Werther, de Goethe. Porém, o que nos deixa consternados é a triste constatação de que estes citados autores retiraram da Bíblia não somente um resíduo cultural, mas, o que é incomensuravelmente mais importante, dela extraíram o fundamento mesmo de suas éticas pessoais, ao contrário dos mais considerados escritores brasileiros.

Quanto a Machado, encontramos, entre tantos textos esclarecedores de sua filosofia de vida, as seguintes palavras: “Amável Formalidade, tu és, sim, o bordão da vida, o bálsamo dos corações, a medianeira entre os homens, o vínculo da terra e do céu”. Verdadeiramente! À este ponto chegamos, já na metade do século dezenove. Sem os valores inculcados por um cristianismo realmente praticado, desconsiderando também aqueles outros oriundos da antiguidade clássica, os mais elevados a que pode almejar uma humanidade que ainda não teve a oportunidade de beber na fonte límpida dos textos sagrados, os homens que almejam viver de forma civilizada, não encontrando apoio em nada que possa assemelhar-se a um legítimo código de moralidade e ética para ampará-los na sua vivência social, podem contar apenas com a “amável formalidade”. Eis aqui a verdadeira gênese do caráter do povo brasileiro. Mas que horrível vazio se pressente na existência formal e egoísta das personagens machadianas! Somente nos caracteres secundários se vislumbra, as vezes, algum vestígio de justiça. Porém, quanto a estes, são sempre apresentados de forma a serem menosprezados. 

Todavia, parece impossível que a nossa intelectualidade estivesse, mesmo no século passado, órfã de bons ensinamentos (se fosse o caso de ela por eles interessar-se). Tinham a Bíblia, nela poderiam, se quisessem, obter o melhor auxílio para a formação de um caráter justo. Tinham as grandes obras da literatura clássica. Seu amor pela formalidade encobrindo uma existência desprovida de valores reais só pode derivar de uma escolha conscientemente realizada. Eles apreciavam viver daquela maneira. E desprezavam a verdadeira instrução, como se pode constatar nestas palavras, tiradas do mesmo parágrafo de Brás Cubas de onde se obteve a citação anterior: “...ao contrário de uma velha fórmula absurda*, não é a letra que mata; a letra dá vida, o espírito é que é objeto de controvérsia, de dúvida, de interpretação e conseguintemente de luta e de morte. Vive tu, amável Formalidade...” 

* "...porque a letra mata, mas o espírito vivifica". (2Co 3:6)

José Cassais

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