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sábado, 4 de maio de 2013

Aristóteles - Poética


Aristóteles afirma, na sua Poética, que o assunto da tragédia ou da epopeia resume-se em dois itens: despertar no espectador (ou leitor) o terror e/ou a piedade. Deveria ser apenas com a geração destes sentimentos que a narrativa teria de se envolver. Parece, entretanto, e embora sendo correto que o âmbito das reações emocionais a serem cultivadas deva ser limitado de alguma forma, que Aristóteles, buscando ser o mais “técnico” possível, limitou demais. Não há duvida de que a piedade e o terror estão entre os sentimentos a serem incluídos no âmbito do argumento dramático, mas também é evidente que devam ser incluídas (o que na vida real sempre acontece) as emoções que lhes são contrárias. Piedade é, na verdade, apenas um outro nome para o amor, ou melhor, uma de suas espécies, sendo o amor um gênero tão abrangente. A forma de se amar um personagem envolto na teia de uma tragédia é sentirmos por ele completa empatia, quer dizer, a piedade em si mesma. Mas a piedade ou o amor conduzem-nos à este outro sentimento supremo e contrário, que é o ódio, capaz de prender nossa atenção e interessar-nos tanto quanto aquele. 

E é justamente com este sentimento que Homero nos enlaça logo no início da Ilíada – o ódio, ou a ira de Aquiles. Nenhum leitor deixa de simpatizar imediatamente com Aquiles e de, juntamente com ele, ver despertar em si o sentimento crescente de ira conforme absorve a descrição da maneira tão injusta com a qual o arrogante, o pérfido Agammênon o ultraja. Não é o sentimento compassivo da piedade que nos coloca do lado da causa de Aquiles, é sim a empatia com que fazemos nossa a sua ira, embora se possa questionar o ponto até onde ele estendeu as suas conseqüências. Portanto, o ódio (a ser despertado no leitor) também encontra o seu lugar na tragédia. De igual modo, não somente o terror é capaz de interessar-nos tão profundamente, como também o seu contrário, que é o sentimento do sublime, o encantamento que sentimos despertar em nós quando o nosso espírito se encontra perfeitamente tranqüilo diante de uma cena de grande beleza. Por este motivo interessam-nos nas tragédias não somente os acontecimentos dramáticos, mas também as descrições bucólicas com as suas cenas pastorais cheias de encanto agreste, pelas quais somos levados a vislumbrar a Beleza, esteja ela disfarçada seja em que em forma for.

José Cassais

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