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domingo, 19 de janeiro de 2014

F. Scott Fitzgerald - Suave é a Noite

    Logo nas primeiras páginas, o estilo adotado pelo autor me fez lembrar o Ulisses, de James Joyce - do qual, aliás, também só havia lido as  primeiras páginas. Esta impressão foi confirmada por uma alusão a Joyce, mais adiante. Vêem-se algumas pessoas que se hospedam em um hotel numa região costeira da França, reunidas em um lugar aprazível à beira-mar, como se estivessem de férias. Na verdade a situação delas é superior a daqueles que estão de férias, pois estão ali por quanto tempo desejarem, aproveitando as amenidades da estação. São suficientemente ricas para não estarem limitadas pelo tempo exíguo que o comum dos mortais chama de "férias." Quando o tempo mudar, ou quando desejarem condições atmosféricas diferentes, partirão. Além disso, possuem todas uma apreciável bagagem cultural, característica comum daqueles que não tem a mínima preocupação financeira, sendo que muitas delas são expoentes em áreas culturais ou científicas: literatura, cinema, psiquiatria... Suas experiências são mais sofisticadas que as das outras pessoas, sendo matizadas com um toque de poesia e cultura. O homem comum observa o tempo à beira-mar e imagina se vai haver sol ou chuva, isto é, se o clima permitir-lhe-á banhar-se ou adquirir um bronzeado. O homem de cultura e livre de preocupações financeiras é senhor de seu tempo, e se as condições atmosféricas mudam ele sabe como apreciar o céu tempestuoso, as ondas revoltas e o frio cortante. Estas coisas lhe sobrevém como poesia.
    O livro não parece ter um enredo, no início, e se o tem seria preciso escavar muito para descobri-lo sob a superfície de tantos episódios. Rosemary, jovem e bem sucedida atriz de cinema, é a moça que aparece na praia observando os grupos já formados e aos quais, logo, ela estará integrada. Num deles encontra-se Dick, psiquiatra autor de vários textos reconhecidos e casado com Nicole, mulher jovem com problemas mentais e ex-paciente dele, herdeira de uma fortuna considerável. Até um certo ponto o livro parece chato, apesar do encantamento que se sente ao entrar na intimidade destas pessoas que podem desfrutar a vida de uma maneira inacessível para a imensa maioria dos seres humanos sem a preocupação do dinheiro, senhoras absolutas de seu próprio tempo e equipadas com uma bagagem cultural que lhes confere um gosto refinado - coisa que os muito ricos de países que não tem uma tradição de cultura clássica não parecem possuir. Como diz o autor do livro: elas aprenderam a apreciar qualidade antes do que quantidade. Logo, porém, o leitor descobre o que há na obra de Fitzgerald que a torna digna de uma leitura atenta e talvez, até, de uma releitura: certas cenas de tensão dramática desenvolvidas brilhantemente. Surge a possibilidade de um duelo. Mckisco, aspirante a escritor, por conta de uma discussão intempestiva vê-se desafiado por Barban, um legionário e aventureiro arrogante. Quantas vezes, na vida de todas as pessoas não surgem situações deste tipo, para testar o seu caráter! Por fim, o que ganhamos delas é conhecermos melhor a nós mesmos. Ou pagarmos com a vida tentando aprender. Mckisco consegue, com a ajuda de um pouco de álcool, desenvencilhar-se dignamente da situação. Ele faz o que se espera dele: arrisca-se o mínimo possível, tem sorte e sai ileso. O fanfarrão Barban gostaria de arriscar-se mais, porém existem regras para os duelos.
    Apesar de contar a sua estória do ponto de vista, ora de um personagem ora de outro, o livro é, na verdade, a história de um casamento. Mesmo sentindo-se atraído por Rosemary, Dick compreende que o seu destino está misteriosamente ligado ao de Nicole, mulher com sérios problemas de personalidade que chegam às raias da doença, por conta de traumas de infância. Entretanto, mesmo esta ligação que confere um sentido mais permanente à existência dos seres humanos pode ser arruinada, se um dos dois envolvidos achar que deve ou precisa ter novas experiências. Mas não se trata apenas disto. A traição, para Dick, é um episódio que não consegue abalar o seu compromisso com Nicole; para ela é o início de uma nova vida. Algumas pessoas não tem a fidelidade como um dos traços permanentes de seu caráter. A recompensa de Dick: ir afundando na obscuridade de uma vida profissional cada vez mais limitada. Ele era, conforme diz o autor do livro, um homem pertencente a maioria, com uma só ideia importante. Já havia entregue sua contribuição para a sociedade.

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