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domingo, 14 de abril de 2013

Vazio

Velozes vultos noturnos
De trens longos e soturnos
Pela noite baça
Arrastam-te em vagões
Carregados de ilusões.

E eles vão...

Perfuram a madrugada
De minh’alma exilada
Do teu coração.

Uma Simples Flor

Caminhante, não desprezes esta flor
Que à beira do caminho surgiu de repente;
Nem penses que é pobre a sua cor;
Por tão simples, não lhe sejas indiferente.

Olha para frente, e vê que a tua estrada
Estende-se além da curva e do horizonte,
E do que lá te espera não sabes nada,
Nem do teu destino encontrarás quem conte.

E bem pode ser esta flor a única nascida
Nesta estrada em que a tua sina se resume...
E, outra, não encontrarás jamais na vida.

Anda, aspira logo o seu perfume!
Enche agora a tua alma com as suas cores;
Pois nela, amando-a, possuirás todas as flores.

Tua Voz

Onde se houve a tua voz, tua voz que eu não mais escuto?
Que paredes, que ouvidos, percebem o som desta tua voz
Que a mim não chega mais?
O que dizem tuas palavras, que eu não compreendo
Nesta distância?

Teus lábios movem-se jorrando uma cascata de frases;
Teus lábios fecham-se quando escutas, abrem-se
Quando cantas... Mas eu não posso ouvir.
Sei que falas. A tua boca transborda com tantos tesouros;
Uma a uma libertas as tuas pombas,
Todas brancas de neve, todas de asas rutilantes.

Tua voz transforma o mundo,
Faz com que ele seja habitável, cria um remanso,
Penetra fundo no desconhecido,
Extraindo dele objetos familiares.
Tua voz é o cotidiano pão do sentido mais comum,
Abre sulcos na terra de cada dia
Onde as palavras se depositam como grãos
De dourado milho, germinando
Ao calor do sol que sempre te ilumina.

Sei que paredes acolhem a tua voz,
Sei que ouvidos estão atentos à tua voz
Quando falas, quando silencias, quando cantas.
Porém, eu nada escuto.
Aprisionado nesta distância,
Separado de ti por prédios e quintais, eu nada ouço,
Embora saiba que a tua voz está soando o dia inteiro.

O Criador colocou no mundo este grão de alegria: a tua voz.
Nós o louvamos, agradecemos a ele por isso.
Pois embora meus ouvidos estejam longe da fonte do canto,
A certeza da tua voz que soa me alimenta
Com um pão de alegria e coragem.

Pela eternidade soará a tua voz.
Porque os braços do Pai te acolhem,
Descerrando-te as portas do mistério,
Eu posso repousar e amar,
Ainda que não tu estejas nesta encruzilhada de tempo e espaço.
Porque cantas, eu posso caminhar.

Tanto Faz

Se deres carne ou comida vegetariana a um cão,
Tanto faz! Jamais pensará como Platão.

Sobre o Chão do Rio Grande

Casas de madeira desgastadas pelo tempo,
Com sombras espalhando-se nos cantos do forro;
Sombras combatidas pela luz de uma janela pequena.

(quatro vidros retangulares e não muito limpos,
                                              um deles trincado)
E a pintura das paredes,
Tão antiga como todas as outras coisas,
Entreabrindo sob a pele partida vestígios de pinturas
Ainda mais antigas.

(paredes pintadas de cal colorida nestes tons azuis,
verdes e rosas esmaecidos, um painel delicado
de pastéis impressionistas erguido
sob a mão de artista do tempo, com pincéis de frio,
de umidade do roçar de braços e costas humanas,
de calor de fogão a lenha, fumaça de lampião,
risos. conversas, gritos...
esperas...)

Pobres casas de madeira enegrecida
Plantadas neste solo do Rio Grande do Sul!
Madeira escura suportando o contato dos pregos enferrujados,
O metal lentamente desfazendo-se,
Escorrendo
Pelas frestas o óxido do tempo.

Pobres casas habitadas por pessoas
Semelhantes às suas casas,
Entregando-se ao tempo sobre o chão do Rio Grande.

Serenidade


o vaso com plantas verdes
no fim de tarde está imóvel
há muitos anos muitos
fins de tarde
ele é 
o mesmo
sempre 
ele
não tem grandes esperanças
nem morre de amores 
por ninguém
apenas
é

Pela Raiz

Na primeira noite eles entram no seu jardim
Para roubar uma rosa.

Você lhes dá um tiro na testa,
E eles nunca mais aparecem.

Parasitismo

Aspalavrassãoomusgodascoisas

Noturno em Si

A unha da lua
Arranha a rua

Uma aranha, nua,
Urina na teia

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Noé

Todas as tardes eu libero pombas e corvos
Da minha janela sobre as águas.

Há muita carniça para os corvos,
Porém, as oliveiras ainda estão submersas.

No Banquete

Platão aprisionou, com dura corrente, o amor ao desejo,
Escondendo a chave por mil anos ou mais,
Enquanto Sócrates, bebendo a seu bel-prazer,
Decretou aos que viriam pelos séculos
Que o Amor não conquistaria jamais a Beleza,
Objeto de seu desejo - pois, se o fizesse,
Não seria mais aquele Amor em falta.
Mas o contrário é o que, justamente, entre os homens se vê:
Os mais belos aproveitando esta sua qualidade
Para conquistar os mais belos.

Toda Beleza quer ampliar-se e acrescentar mais,
Pois, quanto seja, é apenas uma pequenina parte da Beleza
E aspira ao todo.

Meio-Verão

Milhares de mãozinhas acenam
Agitadas pela brisa mansa:
As folhas das árvores.

Um imenso e verde animal
Parece espreguiçar-se ao sol do meio-dia,
Entorpecido pela mornidão do ar:
A natureza.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Eternanovidade

As águas deslizam
Num leito regular,
Contudo,
A cada dia brilham
De forma diferente.

Esperança

A roseira, no presente ano, cobriu-se de muitas flores,
Flores que exalam um aroma delicado, detectável
Quando se aproxima o rosto das pétalas;
Alguns botões mal começaram a se abrir.

É preciso investigar este exemplo, interrogar a terra:
Terra, qual foi o adubo com que alimentaste a roseira
neste ano, para que gerasse tantas flores,
Tão perfeitas em cor, tão plenas de aroma e amor?
Qual o alimento que me darás, terra,
Para que atinja a perfeição em flor e fruto?
Ou esconderás, ainda, no teu escuro odre o segredo
Da composição do meu destino?
Conhecê-lo-ei somente naquele dia no qual, totalmente em ti,
Já não terás mistérios para mim?
Serei então o alimento para outras rosas,
E a tua resposta não me servirá, jamais!
Pois que estas minhas mãos, então inermes e descarnadas,
Não a poderão brandir contra o muro
Que à minha frente agora se levanta.
Não! Não é assim que eu quero a tua resposta.
Basta de interrogar-te, terra, e contemplar abismos!

Porém, a resposta já foi concedida,
Pois a terra brotou, cobrindo-se de ervas e de flores,
Perfumou os quintais e alimentou os pássaros.
Todas as árvores, segundo as suas próprias sementes,
Já estão crescendo; tudo aquilo que conforme as imutáveis leis
Foi plantado agora viceja, para sempre.

Ainda estou revolvendo meu solo.
Logo chegará a primavera.

Costume

O ácido do tempo rouba das flores
A seiva e o viço perfumado,
E coloca entre as palavras
E os meus olhos
A tela do cotidiano,
Contrária ao sentido.

Contemplação 2

A natureza é hora alegre a mais não poder;
Depois, torna-se sensual e convida ao prazer.
Às vezes é triste, mas de uma tristeza bela,
O tipo de tristeza que a gente sente
Quando toca a orla de uma beleza inefável.
Ou, então, ela nos transforma em místicos contemplativos,
Sentados sobre a erva como folhas caídas,
Sendo acariciados pelo mais leve roçar da aragem,
A contemplar a dança de huris das folhagens.

Cada novo dia a natureza veste sua mais bela roupa,
Veste de chuva ou sol, cada qual melhor costurada.
Deus nos disse que o encontraríamos na natureza,
Que ela é obra e testemunho perene de suas mãos;
Cada crepúsculo é insuperável como obra de arte
Que Ele compõe utilizando nuvens e céu e sol e vento.

Meditando nessas coisas, e sem querer dar o braço a torcer,
Certos sujeitos que chamam a si mesmos de “cientistas”,
Inventaram uma tal Hipótese Gaya. Bah!
Como se a própria terra fosse um deus ou deusa,
Ou como se a ideia fosse nova, não tivessem já os gregos
Pensado nisso há tanto tempo.

É bom ficar aqui sentado, enquanto posso,
Redescobrindo a mim mesmo como parte desta natureza mutável.
Foi para este fim que Deus me criou.
Amar a natureza e comungar com ela
Não tem nada a ver com flauta de Pã,
Epicurismo, ou sei lá mais o quê!

Sócrates diria que a natureza sendo bela,
Possuindo-a alguém, por estar em comunhão com ela,
De nada mais teria necessidade,
Pois o Bom e o Belo, que afinal são a mesma coisa,
Não podem desejar o que não lhes falta.

No entanto, não é possível negar
A beleza suprema da natureza,
Nem é solução dizer
Que ela é intermediária entre o Belo e o Feio.
Ela é bela simplesmente em si mesma,
Como cada coisa bela é uma beleza em separado.

E a luz nunca se sacia de luz.