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domingo, 18 de novembro de 2012

Stendhal - O Vermelho e o Negro


O Vermelho e o Negro é a história da vida de Jean Sorel. Mas, mais do que ser simplesmente a história de uma vida, é a descrição de uma personalidade. Esta é a de um indivíduo dotado de muita inteligência e sensibilidade, nascido em uma família considerada de uma classe inferior para os padrões da época. O pai de Jean era madeireiro, ou seja, um industrial, e isto na França do início do século dezenove era considerado um sinal de pertencer a uma classe inferior. O mesmo se aplicava aos que tinham o comércio como sua atividade principal. Somente eram consideradas pessoas importantes aquelas que pertenciam a aristocracia, as que viviam de rendas, as que dispunham dos cargos e aquelas a quem eles eram distribuídos, na maior parte das vezes como simples sinecuras. Os outros pareciam não ter tempo ou necessidade de cultivar as qualidades mais amenas que pertencem aquilo que se chama cultura e civilização.

Jean Sorel, entretanto, já faz sua primeira aparição com um livro nas mãos, empoleirado no alto das estruturas da serraria de seu pai. Ele desfruta da cultura reservada as classes privilegiadas e também está, simbolicamente, num nível mais elevado que o de seus familiares. Porém, mesmo no convívio com os membros de sua familia, ele já tem de suportar a perseguição e o desprezo dos que não ligam para os valores mais refinados da existência, valores estes que se condensam nas coisas mais simples, como o prazer de deleitar-se com o por de sol nas montanhas que cercam o vilarejo. Parece que o mais alto nível de desfrute que as pessoas ao redor de Sorel podem alcançar é o da mesa. Vivem para comer, e se possível comer bem, e para isto é preciso trabalhar duro ou sujeitar-se a uma vida presa a uma organização eclesiástica ou militar.

São estes os dois mundos possíveis para Sorel: a aristocracia e a plebe, e nenhum dos dois parece aceitá-lo completamente. Não tem cargo nem renda para pertencer ao primeiro, mas tem sensibilidade e cultura demais para o segundo. Sonha em elevar-se de sua situação atual, mas suas possibilidades são limitadas. Tivesse nascido alguns anos antes poderia contar com a sorte na carreira militar, no exército de Napoleão. No momento, a sua única opção é a carreira eclesiástica. Entrar para uma ordem religiosa, permanecer e progredir ali, ter sempre comida e bebida na mesa, e a possibilidade de fazer carreira.

Mas a vida de Sorel é marcada pelo signo de uma característica favorável que raramente acompanha a vida de indivíduos dotados de alta sensibilidade e inteligência, mas desprovidos de recursos e vivendo numa sociedade fechada: o apoio de pessoas influentes. É o Senhor de Renal, que o introduz em sua casa como preceptor de seus filhos, graças ao seu conhecimento de latim e da Bíblia. Mas antes disto é o abade Pirard, ensinando-lhe o latim e rudimentos de teologia. Depois, o Marques de La Mole, contratando-o como seu secretário particular. Apesar disto, de que as pessoas que o cercam parecem odiá-lo por sua inteligência e sensibilidade, tentando embaraçá-lo e barrar-lhe o caminho de qualquer maneira, sempre aparece um figurão que o adota, apoiando-o de alguma maneira. Esta característica se repete ao longo da trama. Convenhamos, não é uma característica comum na vida de pessoas como Sorel. A maioria dos talentos deslocados brilha solitariamente em seu meio desfavorável, até se apagar sem iluminar a vida de ninguém que poderia apreciar suas luzes.

Além disto, ou graças a isto, Julien Sorel, nas mansões da aristocracia onde é introduzido, pode ser apresentado e, consequentemente, admirado, pelas mulheres mais lindas e influentes e desejadas de seu ambiente: a senhora de Renal, a filha do Marques de La Mole, e a marechala de Fervaques. A sensibilidade feminina destas mulheres maravilhosas sabe distinguir as qualidades mais importantes de Sorel: sua beleza peculiar, seu caráter sensível e justo, sua inteligência, seu não conformismo, e, sobretudo, seu amor-próprio, a característica mais admirada pelas mulheres e que o torna digno de suas considerações. Pois é disto, principalmente, que o livro trata: da luta de um homem que reconhece suas próprias qualidades superiores, mas não tem como fazer com que elas lhe conquistem os frutos devidos na sociedade dos homens, por causa de sua condição social inferior. Deste reconhecimento surge o amor-próprio, num mundo onde criaturas subalternas não o possuem, por não saberem-se possuidoras de qualidades admiráveis, e tem apenas inveja dos que possuem tais qualidades, e orgulho de suas posições conquistadas pelo nascimento ou pelo recebimento de sinecuras após anos de bajulação dos que podem concedê-las.
De um lado o amor-próprio e o não-conformismo de Julien Sorel, de outro o orgulho e a resignação daqueles entre os quais ele tem de viver. Uma luta desigual, dado o número dos que estão do lado contrário e as condições inferiores de seu nascimento. Tudo isto em uma sociedade estratificada e normatizada ao extremo. A França do século dezenove parecia haver atingido o mais alto nível de civilização. A tecnologia continuaria a desenvolver-se, mas a civilização teria de retroceder. Naquele tempo, até mesmo a morte violenta estava normatizada por um ritual: o duelo. Marcava-se hora para lutar e expor a própria vida ao fim devido a uma bala de revólver. Com condições tão delineadas, onde restava espaço para sentir medo? Mas não será este o objetivo mais alto da civilização: dar um fim ao medo? Prevendo aquelas situações onde a imprevisibilidade e o perigo fazem com que o instinto de preservação desperte os sentimentos mais primitivos de terror pelo cuidado com a própria existência, normatizando aquelas situações retira-se-lhes o elemento de perigo associado ao imprevisto. Este é o mais alto nível de civilização humanamente possível: viver de rendas e sem medo de uma morte violenta.
Há uma reflexão que atravessa a trama acerca das atitudes que um homem deve adotar para preservar o seu amor-próprio intacto. A própria existência não parece ser um valor superior a esta condição. Há aqueles que trapaceiam, como o homem que, desafiado para um duelo, entrega o cartão de um outro. Mas estes não tem amor-próprio, só orgulho e ressentimento. É uma atitude que Jean Sorel não pode adotar. Para ele só existe um caminho, onde se julga digno de viver ou morrer. E é esta mentalidade que o leva a escolher a morte pela guilhotina, quando poderia, facilmente, conquistar sua absolvição, atitude que nos parece absurda quando tomada por um Sorel, mas não por um Sócrates. Há tempos e atitudes inconciliáveis.

José Cassais

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